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COMPORTAMENTO
BRINQUEDOS PROIBIDOS

por Antônio Marinho e Leonardo Valente
Agência Globo

Aos 5 anos, Tiago deixou sua mãe assustada com um pedido: “Mãe, eu quero uma pistola de brinquedo porque preciso atirar urgente nos meus colegas”. Sua mãe, a fonoaudióloga Clarice Martins Ribeiro, correu para a psicóloga infantil. E, mesmo orientada pela profissional a não se preocupar com o comportamento do filho, ela ainda resiste em comprar a tão pedida arma de brinquedo. Já o menino João, 6, proibido pela escola de levar uma espada de plástico para a sala de aula, resolveu o problema de outra forma: pegou a colher-de-pau da cozinha de sua casa e levou-a para o colégio, escondida na mochila: “Foi a forma que ele encontrou de continuar a fazer brincadeiras tão comuns na infância”, diz a mãe, Marta Costa.

Os psicólogos se dividem na hora de definir se as armas de brinquedo e os jogos de videogame incentivam o comportamento violento, além de tirar o sono dos pais. “Tive medo de que o comportamento do meu filho pudesse fazer com que, no futuro, ele tivesse um acesso de loucura como a do jovem que matou várias pessoas num cinema de São Paulo”, diz Clarice.

As pesquisas mostram que o problema não está nos brinquedos. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq), Synésio Batista, entrevistas realizadas por psicólogos do Complexo de Carandiru, em São Paulo, com os 20 presos de alta periculosidade, revelaram que nenhum deles costumava brincar com armas de brinquedo na infância. Apesar do resultado da pesquisa, a Abrinq não fabrica mais armas de brinquedo nem games violentos há seis anos.

“Armas de brinquedo não deixam as crianças mais agressivas. As armas são usadas como fantasia. Se não tiver o revólver, a criança imita a arma com os dedos. Mesmo assim, decidimos não fabricar mais esses brinquedos, para evitar polêmica com alguns setores da sociedade”, diz Synésio.

Segundo a psicóloga infantil Carla Maia, o perigo está justamente no medo dos pais e na repressão a este comportamento. “Esses brinquedos não são responsáveis pela formação de adultos violentos. Muito pelo contrário. Para ter uma infância saudável, as crianças precisam experimentar a violência. Isso faz parte do desenvolvimento emocional. É claro que os pais precisam vigiar e impedir abusos, mas, se esse lado for reprimido, aí sim, ele pode aparecer na fase adulta, dessa vez de forma realmente perigosa”, diz ela.

Eliana Helsinger, presidente da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, concorda que os brinquedos não são a causa do comportamento do violento, mas recomenda que sejam evitados. “A violência está cada vez mais banalizada. Portanto, não é saudável dar presente para um filho jogos violentos ou um revólver de plástico. É claro que, se ele pedir, a melhor alternativa é não resistir pois o que é proibido é sempre mais atrativo. Neste último caso, a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”, explica.

A psicanalista Sofia Saruê diz que a criança sofre influência do meio em que vive. Se ela quer brincar com esses brinquedos, é melhor deixar. Os pais só devem se preocupar com armas de plástico quando a criança só se interessa por isso.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo