LG_jc.gif (3670 bytes)

BELEZA
As receitas de juventude de Pitanguy

por Marcia Cezimbra

Ao festejar os 40 anos de sua escola de cirurgia plástica, que formou mais de 500 cirurgiões de 42 países, o professor Ivo Pitanguy diz que seu maior mérito não foi o de elevar o Brasil a um dos maiores centros da especialidade no mundo, mas o de ter ensinado uma cirurgia plástica para ricos e pobres. Para Pitanguy, todos têm o direito de viver em paz com sua imagem, livres de defeitos que os isolam da vida social. O cirurgião plástico, porém, um psicólogo com um bisturi na mão, como define o profissional, deve operar só deformidades reais. Quando os problemas vêm de auto-imagem interna denegrida, como as mulheres bonitas que o procuram porque se acham feias, Pitanguy as encaminha para os psicanalistas, porque a plástica não lhes trará satisfação alguma.

AGÊNCIA GLOBO: Quais são as perspectivas de rejuvenescimento que o senhor anunciou em Paris para o próximo milênio na última conferência da Unesco?

IVO PITANGUY: A mais interessante perspectiva de rejuvenescimento para o futuro é o Projeto Genoma. Já estamos descobrindo alguns fatores que são responsáveis pelo envelhecimento, mas fico imaginando se um dia poderemos controlá-lo geneticamente.
</DC>
AG: Como seria feito esse controle genético?
IP: Talvez seja feito através da substituição de tecidos e órgãos por peças fabricadas em laboratórios. A biotecnologia é o que há de mais interessante nas perspectivas do amanhã. Estão surgindo novos materiais, substâncias que preenchem rugas e deformidades com uma qualidade antes inalcançável. A biotecnologia não substituirá a cirurgia plástica, mas vai complementá-la com maior eficiência. Acredito que o progresso da biotecnologia chegará à reconstrução de órgãos. Por exemplo, para reconstruir um nariz, poderemos usar transplantes.

AG: E as peles já desenvolvidas em laboratórios?
IP: Dentro da imunologia, já se desenvolvem peles em laboratórios, mas a qualidade estética ainda não atingiu o ideal, embora seja um grande curativo biológico para cicatrizações, por exemplo, de queimados.

AG: <CS8.9>E as perspectivas do rejuvenescimento não cirúrgico?
</CS>IP: Há uma gama de procedimentos não cirúrgicos muito importantes, tanto que criei na minha clínica um departamento de procedimentos não cirúrgicos para trabalhos de pré-operatório, pós-operatório e até de adiamentos de cirurgias. Podemos atender melhor às pacientes do laser e os ácidos também são hoje mais toleráveis pela pele. Isso é o progresso, esses produtos não eram tão bons.

AG: A c<CS9>irurgia plástica promete grandes evoluções técnicas?
</CS>IP: A grande evolução da cirurgia plástica é atender a pessoas ricas e pobres. Os princípios fundamentais são os mesmos. Há técnicas criadas por mim, outras que incorporei, como algumas técnicas de abdômen. Quando surgiu a lipoaspiração na França, todos a adotaram. Vamos incorporando as novas técnicas à base fundamental.

AG:Com que idade se deve fazer uma plástica?
IP: Antes dos 15 anos, se operam orelhas de abano, deformidades congênitas, nariz ou lábios leporinos. Mas operamos crianças desde 2 meses com seqüelas de queimaduras ou lesões traumáticas. Uma pessoa com um nariz deformado deve fazer plástica aos 15 anos, para que o órgão esteja desenvolvido. No caso da lipoaspiração, uma pessoa jovem tem um resultado melhor do que uma idosa. Mas não se opera um abdômen de uma jovem, porque os problemas no abdômen só surgem depois de muitos filhos.

AG: Há cirurgias prejudicais?
IP: Nenhuma cirurgia bem indicada pode ser prejudicial. A mal indicada, sim. É o caso, por exemplo, de uma pessoa que deseja obter um cargo de poder numa companhia e quer ficar mais jovem porque acha que esse é o caminho. Mas ela está fora da realidade, porque o poder não tem corpo. É dado pela autoridade. Essa pessoa me procura achando que eu sou o doutor Fausto, que posso lhe dar aquela porção mágica da juventude. Não vou operá-la.

AG: Ela fará a operação com outro cirurgião...
IP: Sim, ela vai procurar outro cirurgião e ele, que não está bem-informado, a opera. Mas não deveria. Por isso a formação de uma boa escola é importante. O cirurgião plástico é um psicólogo de bisturi na mão. Às vezes tenho que procurar fazer o perfil psicológico da paciente para saber se a sua demanda está dentro das minhas possibilidades ou se a supera, se é um problema com a imagem interna. Às vezes você pode se ver linda, mas poderia não ser tão bonita. Essa é uma distorção positiva de imagem.

AG: Quais são os casos de distorção negativa de imagem?
IP: São os casos de morfofobia, a fobia da própria forma, quando você não se vê como realmente é. Há pessoas bonitas que se vêem feias. Nesses casos, a cirurgia não deve ser feita.

AG: Para onde o senhor encaminha essas clientes com problemas de auto-imagem?
IP: Eu sempre indico essa cliente para um psiquiatra ou um psicanalista. Se ela me procurou, é porque precisa de algum tipo de apoio. Vejo que o núcleo familiar, que é o que temos de mais importante na vida, está desaparecendo. Vivemos isolados. O bem-estar vem dos amigos, da família, das conversas no botequim da esquina. As pessoas precisam recuperar esses valores. Minha filha Gisela, que é psiquiatra, me ajuda com uma assistência terapêutica aos pacientes antes e depois das cirurgias. Mesmo nos casos de indicação cirúrgica esse contato é muito importante.

AG: São muitos os casos de problemas de imagem interna?
IP: De 10 a 20 pessoas que atendo por dia, uma ou duas são casos psicanalíticos, cerca de 5% dos atendimentos. Com o tempo, aprendemos a não operar essas pessoas, mas às vezes nos enganamos. Um esquizóide pode se apresentar como o bom doente e eu não perceber. A vida é um palco. Essa pessoa vai representar o bom doente e vou fazer o que não devia.

AG: Como o senhor aprendeu a identificar essas pessoas?
IP: Um dos indícios são as pessoas que fazem tudo ao mesmo tempo. Vão ao endocrinologista, fazem dietas, se alimentam mal e vivem com restrições em excesso. Estão dando importância demasiada ao físico. Mas é o espírito que nos governa. É o que temos de mais nobre.`

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo