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ENTREVISTA / Inocêncio Oliveira
“Guia deve se preocupar mais com Magalhães”

O líder do PFL na Câmara, deputado federal Inocêncio Oliveira, disse, nesta entrevista a Inaldo Sampaio, que o Guia Eleitoral dos partidos da aliança deveria priorizar mais as “virtudes” do prefeito Roberto Magalhães (PFL) e colocar num plano secundário os “defeitos” de João Paulo (PT). “Mais do que discutir defeitos do outro candidato, temos que mostrar as qualidades do nosso”, disse. Ele defendeu, também, que o Guia do candidato da aliança não seja “ideologizado”, devendo concentrar-se fundamentalmente na apresentação de Roberto Magalhães como bom administrador e político de nome nacional, além de peça política decisiva para a manutenção da aliança PMDB-PFL.

Inocêncio disse, ainda, que está saindo dessas eleições com o seu prestígio consolidado, sendo o parlamentar da aliança que mais “fez” prefeitos em 1º de outubro. A sua vitória só não foi completa, segundo ele reconhece, porque perdeu em sua terra natal, Serra Talhada, para o médico-veterinário Geni Pereira (PSDB), aliado do deputado estadual Augusto César. Pesou nesse resultado a má administração do prefeito Tião Oliveira (PSDC), que é seu irmão, o qual – a uma semana da data do pleito – detinha 60% de reprovação. Mesmo assim, não retaliará o prefeito eleito. Disse que as portas do seu gabinete estarão abertas para ele, porque assuntos de interesse de Serra Talhada serão sempre tratados suprapartidariamente. O deputado não acredita em surpresa na eleição para as mesas da Câmara e do Senado em fevereiro: “Dá Jáder no Senado e eu na Câmara”, garante.

 

<DC@1,4,0,0,0,0,0,0,4,85,75>JORNAL DO COMMERCIO – O senhor se saiu bem nessas eleições?
</DC>INOCÊNCIO OLIVEIRA – Sim. Apesar de ter perdido em minha terra natal, Serra Talhada, o balanço em meu favor foi satisfatório. Não gostaria, obviamente, de ter sido derrotado na minha terra, mas a derrota foi uma decorrência dos problemas políticos e administrativos que fomos obrigados a enfrentar.

JC – Que problemas foram esses?
Inocêncio – Começa pelo desgaste natural de quem se encontra no poder, que não pode atender a todas as demandas. Isso é válido para os municípios pobres, como é o caso de Serra Talhada, como também para os municípios ricos. Nenhum deles dispõe das receitas necessárias para atender aos reclamos da população. Foi o que aconteceu conosco. Além do mais, os problemas sociais no Brasil estão se avolumando, sendo de todos o mais sério o desemprego. Existe uma palavra mágica chamada “mudança”, que leva a maioria do eleitorado que está insatisfeita com quem se encontra no poder a acreditar que o candidato da oposição será o “salvador da pátria”. Prometeram o que não irão cumprir e a nós da oposição caberá cobrar.

JC – O candidato que o senhor apresentou para disputar a prefeitura com o prefeito eleito, Geni Pereira, correspondeu?
Inocêncio – Sim, o candidato (médico Carlos Evandro) era muito bom. Fez uma belíssima campanha em cima de programa de governo debatido com todos os segmentos da população. Como líder do PFL no município, participei ativamente de todos os atos políticos da campanha dele, mas, infelizmente, não deu pra chegar. Elegemos seis vereadores e iremos continuar a nossa luta em defesa do progresso e do desenvolvimento do município de Serra Talhada.

JC – Quantos prefeitos o senhor elegeu?
Inocêncio – Sou o deputado federal do PFL e de todos os partidos políticos que compõem a nossa aliança (PMDB, PSDB e PPB) que mais elegeu prefeitos nessas eleições, indiscutivelmente. Quarenta por cento dos prefeitos eleitos pelo PFL foram diretamente apoiados por mim e fazem parte do nosso grupo. São 18 do PFL e 14 eleitos por outros partidos. Espero consolidar cada vez mais a nossa liderança sobre esse grupo, através de um trabalho consistente de obtenção de verbas em Brasília para que esses municípios se desenvolvam, sobretudo na área de saúde, educação e infra-estrutura.

JC – O prefeito eleito Geni Pereira, que é seu adversário, terá acesso ao seu gabinete?
Inocêncio – Claro que sim. Seria um contra-senso que um parlamentar com as responsabilidades políticas que eu tenho fosse retaliar o prefeito eleito da minha terra só porque ele é meu adversário. Isso eu não faria nunca. Espero apenas que ele me procure para fazer o encaminhamento dos projetos que julgar necessários ao desenvolvimento de Serra Talhada, que, como cidade pólo do Sertão do Pajeú, enfrenta os mesmos problemas das grandes metrópoles. Serra Talhada sempre esteve solidária comigo em todos os momentos, apesar do resultado adverso do dia 1º de outubro. Mas temos que compreender que isso faz parte do jogo político e lutar pela recuperação do tempo perdido daqui a quatro anos. Vamos fazer uma análise do resultado das urnas, ver qual foi o recado que o nosso eleitor mandou, e retirar disso as conclusões. É assim que se faz política.

JC – O senhor debita a derrota de Carlos Evandro ao desgaste político e administrativo do prefeito Sebastião Oliveira, que é seu irmão e foi eleito com o seu apoio?
Inocêncio – Todas as pesquisas mostraram isso, mas devo dizer também, por uma questão de justiça, que Tião teve o seu lado positivo: é um prefeito profundamente honesto. Isso já o diferencia no contexto e marca a passagem do nosso grupo pela administração municipal. Ele não roubou e nem deixou roubar. Ele sempre teve a honestidade como uma qualidade indissociável da atividade pública e, por isso, eu me sinto orgulhoso e envaidecido por ser seu irmão.

JC – O PFL sai maior ou menor dessas eleições?
Inocêncio – Eu diria que sai do mesmo tamanho. Perdemos alguns municípios importantes, como Petrolina, Vitória de Santo Antão, Santa Cruz do Capibaribe, Serra Talhada e Salgueiro, mas recuperamos outros.

JC – Por exemplo?
Inocêncio – Arcoverde, com Rosa Barros, Belo Jardim, com João Mendonça, Afogados da Ingazeira, com Giza Simões. Todavia, a vitória mais importante da aliança, centrada na figura do governador Jarbas Vasconcelos, foi a vitória de Caruaru, com o nosso deputado Tony Gel. É a maior cidade do agreste pernambucano e um pólo irradiador de desenvolvimento de toda aquela microrregião. Todavia, o nosso maior desafio nesse segundo turno é a vitória de Roberto Magalhães para a prefeitura do Recife. Essa vitória é muito importante para nós, tanto do ponto de vista regional, como também nacional, porque ela extrapola, sem sombra de dúvida, as fronteiras da nossa capital para se inserir no contexto político da eleição de 2002. Por essa razão, vamos fazer o máximo de esforço para reeleger Roberto, que não apenas é o melhor candidato para o povo do Recife pelo que realizou e ainda pode realizar, como também pela sua estatura moral e intelectual. A vitória dele é fundamental para que possamos consolidar esta aliança. Com a globalização da economia, vamos necessitar para garantir a governabilidade de Pernambuco de uma base política e de uma base financeira. A base econômico-financeira está mais ou menos equacionada com os recursos da venda da Celpe, que se encontram praticamente intactos e numa conta desvinculada da conta única do Estado. Esses recursos serão gastos nos projetos que a Agenda 21 determinar como sendo os projetos prioritários ao desenvolvimento sócio-econômico do Estado.

JC – E a base política?
Inocêncio [TEXTO]– Decorrerá indiscutivelmente da reeleição de Roberto Magalhães.

JC – O prefeito Roberto Magalhães liderou as pesquisas do primeiro ao último dia, mas não conseguiu vencer no primeiro turno. Em sua opinião, o que deu errado na reta final?
Inocêncio – Quando se vence uma eleição em primeiro turno aparecem muitos fatos positivos, mas quando o resultado é adverso os fatos negativos preponderam. Temos que fazer uma reflexão interna, sem o acompanhamento da imprensa, para ver onde erramos. Não é hora de culpar ninguém por este meio insucesso eleitoral, e sim de arregaçar as mangas para recuperar o tempo perdido. A responsabilidade por não termos vencido no primeiro turno é de nós todos. Cabe-nos, agora, corrigir os erros que foram praticados no primeiro turno, e levar o nosso candidato a uma grande vitória.

JC – Qual, na sua opinião, deve ser o discurso da aliança para esse segundo turno da eleição?
Inocêncio – O discurso do segundo turno deve mostrar Roberto Magalhães como um grande administrador, aquele que realizou no Recife uma notável obra administrativa, e aquele que tem a experiência para fazer de nossa capital a capital do Nordeste e desvinculá-lo de ideologia. Mais do que discutir defeitos do outro candidato, temos que mostrar as qualidades do nosso. Roberto não precisa mostrar defeitos de ninguém, e sim apresentar-se aos eleitores com as suas qualidades de homem público. Isso é o que é fundamental para nós ganharmos a eleição.

JC – Passemos agora para o plano nacional: a situação de Curitiba é muito parecida com a do Recife. O PFL partiu na frente mas, na reta final da campanha foi atropelado pelo PT. O que foi que houve?
Inocêncio - O presidente nacional do nosso partido, Jorge Bornhausen, vai fazer sua base em Curitiba porque, para nós, é muito importante a reeleição de Cássio Taniguchi. Com quatro anos de Rafael (Grega) e outros quatro de Cássio Curitiba deu um salto de qualidade. Vamos defender em praça pública a continuidade dessa administração, que tem sido modelo para várias outras capitais, procurando o PSDB para apoiar o nosso candidato, já que o PFL, em Belo Horizonte, fechou com a candidatura de João Leite (PSDB).

JC – Futura mesa do Congresso Nacional: dá Jáder na presidência do Senado e Inocêncio Oliveira na presidência da Câmara?
Inocêncio – Estou conduzindo este processo com o máximo de prudência. Mas qualquer pesquisa que se fizer hoje sobre a preferência dos deputados para a presidência da Câmara dá Inocêncio Oliveira na cabeça. Respeito a opinião do senador Antonio Carlos Magalhães sobre a presidência do Senado (contra Jáder e a favor de Sarney). Mas tenho também informações seguras segundo as quais ao presidente da República interessa a manutenção do tripé: o PSDB com a presidência da República, o PFL com a Câmara e o PMDB com o Senado. A continuidade disso se faz necessária, sobretudo depois da vitória do PT nas grandes cidades brasileiras.

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Jornal do Commercio
Recife - 15.10.2000
Domingo