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PELOS BOTEQUINS DO RIO
Desce mais um chope, seu garçom

por Fabiana Moraes

Botequim no Rio é instituição. É herança de pai para filho. É também fator para determinar o dia da semana. Hoje, por exemplo, não é quinta. É dia de ir lá no Jobi, um dos mais famosos da cidade. E engana-se quem pensa que o boteco genuíno do carioca se resuma a cerveja e azeitona no pratinho. A coisa é séria, por isso tenha respeito. É preciso saber apreciar o chope, além de saborear petiscos que sim, incluem as tais azeitoninhas, mas passam pelos tradicionais bolinhos de bacalhau até luxuosas lulas e mexilhões. A qualidade e quantidade destes santuários da boemia é mote de um delicioso livro publicado pela editora Casa da Palavra e Memória Brasil: o Guia Rio Botequim, que premia anualmente os 50 melhores da cidade. O lançamento da quarta edição, que aconteceu mês passado, contempla quem serve o melhor chope, quem tem o melhor petisco, o garçom mais simpático e eficiente. Além desses critérios, os mais charmosos também são citados (talvez a classificação mais difícil de ser feita). Um passeio por esses pés-sujos, como também são conhecidos os botequins, é uma obrigação para quem vai à Cidade Maravilhosa – o Corcovado e o Cristo, a gente vê todo o dia na novela das oito. Lembre-se: é preciso tempo, muito tempo, para tomar cada chope sem nenhuma pressa, prestar atenção na clientela, na desenvoltura do garçom, nas peculiaridades de cada um dos botequins. Experimentar o máximo de petiscos e caldinhos que puder, ouvir um samba ou chorinho (de preferência lá no Bip Bip), falar mal do governo, achar uma charme beber mais um trago em pé. Reserve tempo também para outra noite de farra, que a lista dos botecos é grande. Ah, e não esqueça do Engov.

Eleito pelo quarto ano consecutivo como o melhor botequim carioca, o Bracarense parece agregar boa parte dos símbolos cachaceiro-românticos do Rio. Localizado no coração do Leblon, bairro boêmio por excelência, o Braca (para os íntimos) à primeira vista, não passa de mais um pé-sujo. Ledo engano. Da sua cozinha saem os mais deliciosos aperitivos, como os bolinhos de macaxeira (aipim, para eles) com camarão e os bolinhos de bacalhau. Chico, considerado um dos melhores garçons da cidade, é uma lição de elegância e simpatia que atende no boteco há mais de dez anos. Chega e, sorrindo, oferece um canto para o visitante sentar. Quem é da casa não precisa da cerimônia: vai lá para o balcão e aprecia o cultuado chope por ali mesmo. “Quer um grande ou um garotinho?”, pergunta Chico, referindo-se ao tamanho do copo em que o feliz novato será servido. Peça o grande, para começar. A bebida é realmente deliciosa, encorpada, gelada no ponto certo.

De acordo com Antônio Leite, um dos ‘tiradores’ de chope do Bracarense, o sucesso da bebida não tem segredo: é só saber o ponto certo para tirar, na pressão. Mas é aí justamente que reside a arte do ofício. Antônio lembra: “Tem que ter gelo também, bastante”. Antes de chegar ao copo (sempre limpo, uma obrigação que nem todo o boteco segue), o chope sai de uma torre antiga e passa por 60 metros de serpentina.

E tem os petiscos. Bolinho de aipim com camarão. Carne assada com cebola, pimentão e tomate. Carne seca (charque) desfiada. Tão simples quanto deliciosos, os pratos – sim, porque aquilo não é só um petisco – são preparados pela mineira Alaíde Carneiro, que lança, todo ano, uma novidade para os freqüentadores do Braca.

A casa foi fundada em 1951. Pequena, se resumia a apenas uma porta e um balcão, onde eram servidos almoços comerciais. Não estranhe se a mesa em que você estiver sentado esteja marcada com algum nome. Segundo Chico, o garçom gente boa, são os locais ‘loteados‘ por alguns clientes em determinados dias da semana. “Aquela mesa ali pertence a quatro amigas que vêm aqui todo sábado”, explica o profissional, que não esquece nome de cliente, nem mesmo do novato. Um luxo.

Depois do Bracarense, que fecha lá pela meia-noite (explica-se: eles abrem pela manhã, e até servem almoço), a pedida é o Jobi, também no Leblon. É a saideira oficial dos boêmios cariocas e ponto de encontro de artistas, descolados, profissionais liberais e até turistas. Resumindo, tem de tudo. Curiosamente, essa diversidade apenas soma pontos ao local, um botequim pequeno e deliciosamente bagunçado. “É por época: às vezes a gente tem mais jovem, às vezes o pessoal mais velho. Tem jornalista, executivo, garotão”, diz Narciso Rocha, há quase 40 anos à frente do botequim, junto ao irmão Manoel.

O delicioso caldinho de feijão da casa é muito famoso, e não é para menos. Vem na consistência certa (encorpado, sem ser cremoso), bem temperado e acompanhado por torresminho, salsinha, cebola picada, azeite e pimenta, tudo num pratinho à parte, para que o cliente tempere do jeito que quiser. A iguaria é de responsabilidade dos quatro cozinheiros do Jobi, boteco fundado em 1956. Das oito mãos também saem petiscos saborosos como o risole de camarão com catupiry e as empadinhas de camarão e galinha.

Este ano, o boteco foi eleito o quarto melhor do Rio, pulando seis casas em relação ao último Guia Rio Botequim (edição 2000). Os preços são justos, levando-se em consideração a qualidade do serviço. Um pastelzinho sai por R$ 1,20, o caldinho por R$ 2,50, e o chope por R$ 1,50. Seu Narciso, porém, anuncia: vai ter que aumentar. “Vou agir de acordo com o preço das mercadorias”, justifica. Fiado, diz ele, nem pensar. “Não faço pendura nem para cliente antigo”, diz. Depois, pensa um pouquinho e conserta. “Mas pode haver alguma exceção”.

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Jornal do Commercio
Recife - 12.10.2000
Quinta-feira