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PELOS BOTEQUINS DO RIO III O charme de uma adega chamada pérola Eleger boteco charmoso no Rio de Janeiro é tarefa inglória. Quase todos possuem uma atmosfera muito própria, histórias típicas, personagens lendários. Mas não há como ficar imune à Adega Pérola, na Siqueira Campos, coração de Copacabana. A fachada, de simplicidade franciscana, não faz jus ao que existe lá dentro: mesas escuras, pregadas nas paredes, um balcão com 70 diferentes tipos de petiscos, que incluem mexilhões e azeitonas gregas e esquisitices como testículos de peru. O clima é rústico, meio espanhol e um bocado português. Os vinhos estão espalhados por todas as paredes, e, acima do balcão, são vistas várias especiarias e temperos, além de, claro, bacalhau. Nos anos 60, a Adega Pérola era bastante freqüentada por intelectuais e artistas famosos, como Ferreira Gullart e Chico Buarque (este um boêmio de carteirinha e profundo conhecedor dos pés-sujos cariocas). A movimentação desse público se dava por conta do mítico Teatro de Arena, que funcionava em frente ao centro comercial, perto do botequim. Ainda hoje, os habitués são formados principalmente por músicos, atores, escritores ou simplesmente a meninada cool que pretende entrar em algumas destas profissões no futuro. Talvez o grande charme do bar esteja vinculado aos petiscos diferenciados, de base européia e à manutenção natural de um ambiente simples e aconchegante. Ali, tanto é possível experimentar uma das sugestões da casa enquanto se saboreia um chope quanto pedir várias porções das iguarias para almoçar ou jantar. O único probleminha da adega são os preços, tão salgados quanto seu bom bacalhau. Os frutos do mar, especialidade da casa, custam R$ 8, 100 gramas. A dica é experimentar os rolmops (chamado de sushi português, embora seja uma especialidade alemã), que custam menos de R$ 2, a batata calabresa (iguaizinhas às batatas bravas, típicas da Espanha, também por R$ 2). O Bip Bip, também em Copacabana, é outro local charmosíssimo, pé-sujo até o último copo Nadir Figueiredo e grande palco de concentração de sambistas e choristas cariocas. Domingo é lei: forma-se a roda de samba que atrai os boêmios e aspirantes da região, lotando o espaço do bar, começando pela calçada. Outra roda de samba acontece às sextas, quando um grupo menor, formado por sambistas da velha guarda como Zé Kéti e Beth Carvalho, se reúne apenas dentro do bar e consome chope até as tantas da madrugada. Seu Alfredo, eleito um dos melhores garçons do Rio, é na verdade o proprietário do local. Seu estilo é, sem dúvida, um dos grandes diferenciais do bar. Quando chega, Alfredo pendura o terno: é sinal que a casa está aberta. Na hora de fechar o botequim, ele veste o terno e dá sinal que não serve mais nenhum chope. O dono da bodega também não precisa ficar anotando o que os clientes pedem cada um escreve seu consumo no livro de despesa. Mas isso é reservado para cliente antigo. Sei tudo que sai do balcão, avisa Alfredinho aos mais espertos. PINDURA NO PORTUGUÊS A famosa rede de botequins Manoel e Juaquim começou timidamente e hoje se firmou como um dos melhores pontos cachaceiros do Rio. A cozinha, ano passado, levou o primeiro lugar em qualidade e sabor, e faz do bar um santuário para os especialistas em empadinhas e caldinhos. Existem várias filiais do boteco espalhadas pelo Rio, mas a melhor dica é ir se deliciar com os chopes na matriz, localizada em Engenho de Dentro. Na construção do início do século, impera o charme português: na porta dos banheiros, os gêneros são identificados como gajos e raparigas e os cardápios são repletos de piadas. Logo na entrada do boteco, uma plaquinha indicando aos novatos para terem cuidado com o degrau já anuncia a irreverência do Manoel e Juaquim. Cuidado com o degrau! o Manoel já machucou a perna, e o Juaquim tá manco. (F.M.) |
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