![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
PELOS BOTEQUINS DO RIO IV No bar, histórias e personagens oníricos por Mario Hélio A conversa flui/ e o tempo passa entre as pessoas/ como um rio longo, longo, reunindo/ margens variadas./ Sem solenidade/ comemora-se mais um dia/ mais uma noite./ Bebemos cerveja./ Há lufadas de vento quente,/ rumor de folhas,/ e a reunião de vozes sob o silêncio das estrelas. Esse poema lírico Bar, de Fernando Mendes Viana, resume bem o espírito de todos os bares. Todos os bares parecem amigos da maioria dos poetas. No Rio, o poeta José Almino fez o melhor retrato do Hipódromo, no livro Baixo Gávea. O subtítulo Diário de um Morador simplifica o que, na verdade, é um saboroso conjunto de crônicas. Ou, mais precisamente, pequenos relatos, em que as pessoas são toda um bairro, em que o bairro é tratado como uma pessoa. E o bar? Tudo isso junto. O Hipódromo estava praticamente vazio e a Praça do Jóquei, coitadinha, tão feinha, como a bandeira brasileira do poeta Vinicius de Moraes (nascido naquelas vizinhanças), já nos parecia gloriosa de cores e de luzes. De repente, surgiu uma dessas tempestades de verão saídas diretamente de uma antologia escolar de textos literários. Logo se vê como o ambiente é o melhor pretexto para contar histórias, e exercer aquela arte que os gregos levaram à perfeição: a conversa. Um bar é a mais especial das ágoras. Os tipos que o autor faz desfilar às vezes chegam na vizinhança do onírico mas qual bar em que haja alma não é um pouco assim? O Hipódromo é pretexto para falar de Gerald Taylor, um personagem que o autor jura que realmente existiu. Nos sábados, raramente vinha ao Hipódromo. Disse-me que enfurnava-se em casa lendo, ou vagava pelo centro em torno dos sebos e dos bares. Há motivos para tudo no Hipódromo, mas os literários, é claro, predominam, nas histórias em pílulas que conta Almino. Ou nas histórias em doses, como seria mais apropriado ao freqüentador (ou morador?) de um bar. Muito bem ilustradas por esta pérola de um garçom do Hipódromo: Qual é o cliente que não gosta de choro? |
|