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INUNDAÇÃO
Recife não esquece a catástrofe de 1975

A maior catástrofe que já atingiu Pernambuco neste século, a cheia de 1975, completa 25 anos amanhã. Na época, os jornais noticiaram (com um certo exagero) que 80% do Recife ficou submerso. Pelo menos 35 cidades foram inundadas no Estado e o município de Água Preta, na Zona da Mata Sul, quase sumiu do mapa. Mais de cem pessoas morreram e 60 mil ficaram desabrigadas em conseqüência da enchente do Rio Capibaribe.

De acordo com as vítimas da cheia, as águas amareladas começaram a invadir as casas na noite do dia 17 de julho, uma quinta-feira, numa rapidez espantosa. O ponto alto da enchente foi no dia seguinte e no sábado as águas começaram a baixar. O Capibaribe subiu 8,5 metros além do seu nível normal, atingindo uma vazão máxima superior a três mil metros cúbicos por segundo. A força das águas arrancou pontes e a cidade do Recife ficou isolada.

“A vazão normal do rio, em 1975, era menos de cem metros cúbicos por segundo”, diz o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, Almir Cirilo. Com a retificação do rio, após a enchente, o limite da calha do Capibaribe aumentou para 700 metros cúbicos por segundo. Ele acrescenta que a cidade não está livre de pequenas inundações, mas dificilmente viverá uma tragédia como a de 25 anos atrás.

MANUTENÇÃO – Na avaliação de Almir Cirilo, a cheia de 1975 foi extraordinária, mas não foi excepcional. “Não foi a bacia do Capibaribe inteira que contribuiu para o alagamento. Se fosse, o desastre teria sido maior. A cheia foi reflexo da parte baixa, por isso não foi excepcional”. Ele afirma que podem acontecer vazões maiores que aquela, mas as quatro barragens em operação (Tapacurá, Jucazinho, Goitá e Carpina) reduzirão o impacto das águas.

O professor ressalta, porém, que a capacidade de controle de enchentes das barragens depende de um monitoramento contínuo das comportas e vertedouros, que devem ser sempre testados para se evitar surpresas. “O governo precisa investir na manutenção dessas obras, monitorando de forma eficaz o rio, as chuvas e o sistema de barragens”. Almir Cirilo destaca, ainda, que Tapacurá, ao longo dos anos, teve sua função de controle de cheias reduzida.

“Como o Sistema Tapacurá está sendo usado mais para o abastecimento da população, ele conta muito com os outros reservatórios para cumprir seu papel de contenção de cheias”, observa. A múltipla função das barragens (controle de cheias e abastecimento), segundo o professor, é uma tendência mundial. “Mas o monitoramento tem de ser muito grande. Chuvas intensas à jusante do reservatório de Tapacurá podem provocar enchentes no Recife”, alerta.

PRUDÊNCIA – Almir Cirilo explica que o Recife é uma planície baixa e por isso as águas têm dificuldade para escoar. “Em 1975 a cheia coincidiu com a maré alta e como o Rio Beberibe também transbordou, a situação foi catastrófica”. Ele era estudante de Engenharia Civil da UFPE, na época, e ainda guarda as imagens da tragédia. “Os alunos voltaram às aulas na universidade com a única roupa que havia sobrado. Tudo isso definiu meu rumo profissional”.

Professor aposentado da UFPE, Arlindo José Amorim Pontual afirma que os efeitos das cheias de 75 podiam ter sido menores, se os governantes tivessem observado algumas recomendações técnicas feitas anteriormente.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.07.2000
Domingo