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ARTIGO

Dessa dor o que virá

por Emanuel Dias*

Costuma-se simplificadamente traçar, em relação aos povos, linha ascendente e descendente que revelaria a ascensão e queda de civilizações. Modernamente, a aplicação dessa simbologia teria que corresponder a alguns pressupostos que explicariam um momento e outro. Ascende a um posto de civilização a nação que cumpre requisitos como estabilidade material e evolução constante do espírito, do conhecimento, da ciência, da visão de mundo. Decai a que alcançou o apogeu e vê desmoronarem suas conquistas morais, materiais ou científicas. Dentro dessa perspectiva como poderíamos pensar o Brasil? Entendemos que nosso grande País está em um determinado ponto da linha ascendente, bem distante do topo, onde se materializariam as características de civilização. A angústia instalada na sociedade bombardeada a todo instante com denúncias de corrupção e violência é a forma mais visível de demonstrar a nossa distância daquele momento ideal e perseguido por todos os povos.

É assustador – e distante daquele patamar desejado de conquistas – um cenário onde a morte violenta está banalizada e a corrupção se agiganta a partir da classe dominante, da elite dirigente, em todos os níveis. Gera-se, nesse intolerável, e uma questão se impõe a partir dela: dessa dor, o que virá? A maneira de responder a essa questão denuncia o grau de compromisso que temos com nossa realidade.

Alguns acham que o melhor é fugir do núcleo da violência para não serem vitimados por ela. Esses se protegem em fortalezas urbanas com muros, grades, guaritas, guardas, cães, circuitos fechados de TV, alarmes – em alguns casos mais sofisticados até carros blindados –, aprofundam e exteriorizam sua descrença nas instituições e se omitem por repugnância ou temor. Desses a nação tem muito pouco, ou nada, a esperar.

Outros entendem que resistir é preciso. Se há violência é preciso combatê-la. Se a corrupção se instalou no poder, podemos destruí-la pelo exercício da democracia. São os que lamentam o passado, mas preferem acreditar no futuro e ai é possível identificar segmentos pensantes da nação, cientistas, acadêmicos, profissionais liberais, lideranças trabalhistas e empresariais que colocam em primeiro plano a discussão e transformação da realidade quando ela se mostra injusta.

Disso decorre, basicamente, que nosso cotidiano está humanamente dividido entre pessimistas e otimistas e o Brasil que emergirá no século 21 terá o perfil dessa combinação excludente, restando-nos opinar, torcer ou apostar por qual corrente dominará o cenário.

Restar, sobretudo, interferir para transformar o cenário. Nós apostamos no lado da crença. Entendemos que das dores sociais nascerá uma sociedade amadurecida para permanecer na linha ascendente e chegar ao topo, no lugar em vira realidade a idealização de um estado de coisas onde – como queria o imaginário popular – correrão rios de leite.

Essa idealização tem, na versão mais atual e realista, um balizamento bastante simples: haverá uma nação com pleno emprego, habitação, escola e saúde para todos. Não haverá analfabetos e se tomará inimaginável um cidadão faminto vagando pelas ruas. As instituições funcionarão, os poderes serão dirigidos por pessoas dotadas de valores éticos poderosos e o cotidiano se fará como uma grande partilha solidária, onde a criminalidade será vista como demonstração rara de deformação.

A quem pensa que esse cenário é utopia pura, convidamos à reflexão. O primeiro passo será entender a História não como um dado cronológico mas como o percurso do animal racional em direção à sua racionalidade plena. Isso pode ser medido em anos, séculos? A mensuração desse passo é a própria natureza humana. Outro passo, mais imediato, seria refletir de que forma estaria contribuindo para transformar a realidade perversa.

Entretanto, devemos antepor a essa visão otimista a exigência da pressa cronológica. Mesmo sabendo que temos um encontro histórico com a superação da realidade perversa deste final de século, não dá para imaginar mais cinco séculos como o tempo necessário para vencer a violência e a insegurança que se transformaram na face cruel de uma nação que tem tudo para dar certo. Na descrença cada vez mais vista na face das pessoas temos que provocar a indignação diária contra todo tipo de injustiça e o clamor permanente por um mundo melhor, mais justo.

* Emanuel Dias é reitor da Universidade do Estado de Pernambuco


Jornal do Commercio
Recife - 18.04.2000
Terça-feira

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