![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
500 ANOS Brasil era para ser paraíso, mas... por Napoleão Sabóia A representação do paraíso terrestre. A mais fiel tradução do mito da Terra Sem Males. Assim poderia ter permanecido o Brasil por mais alguns séculos, não tivessem os portugueses e tantos outros depois deles entendido o descobrimento tão ao pé da letra: como uma licença para remover a cobertura florestal por onde quer que passassem. Após o primeiro deslumbramento, o exuberante Novo Mundo precisava ser domado, cristianizado e explorado. O descobrimento começa pelas bordas, em toda a região costeira, com a exploração predatória do valioso pau-brasil e de outras madeiras nobres da Mata Atlântica, utilizadas na reforma e construção das caravelas ou em igrejas e mobiliário. A devastação assume tamanho vigor, que logo entre 1510 e 1520, a Coroa Portuguesa manifesta preocupação com a predação aos recursos naturais e D. Manuel dá instruções para reduzir o desperdício e racionalizar a derrubada de árvores reais e paus de lei, origem da expressão madeira de lei. A ocupação territorial da zona costeira toma grande impulso e marca o século XVII com a abertura de fazendas de cana-de-açúcar e a expansão da pecuária, em detrimento da Mata Atlântica. Registros do que era esta floresta posta abaixo e descrições detalhadas de espécies da flora e fauna encontram-se em inúmeros relatos de jesuítas, capazes de separar a natureza (e os índios) do conceito corrente de selvagem. O ciclo da mineração, iniciado em meados do século, leva os colonizadores mais para o interior, abre novas estradas e deita, em seu leito e nos alicerces de todas as construções, imensas árvores de madeira nobre da mesma Mata Atlântica. Em torno de 1650, a retirada da mata para expansão urbana e o consumo de lenha e carvão nas proximidades das primeiras cidades já causa deslizamentos e assoreamentos de rios, também tidos, então, como veículo de doenças tropicais e infecções. Em 1760, novamente se manifesta a preocupação da Coroa Portuguesa, com o desperdício de recursos e o rei D. José expede um alvará, determinando a proteção das árvores mangues do Brasil. Cinco anos mais tarde, chega o governador da Capitania de São Paulo, Antônio Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, com vários cartógrafos e a firme determinação de planejar a ocupação no Brasil colônia. Ele concebe um conjunto de cidades e estradas, ligando a foz do Prata a São Paulo, Goiás, Planalto Central e Belém, norteado pelo conceito de divisão por bacias hidrográficas, que ainda hoje o País luta em implantar, para dar mais racionalidade ao desenvolvimento. Em 1790 surgem as primeiras denúncias ambientalistas, com os textos de José Bonifácio, contra as desordens promovidas por feitores estúpidos e ignorantes na arte de pescar baleias, de sua Memória Primeira sobre as Baleias. A ocupação do interior se intensifica, assim como a criação de novas cidades. O café avança e com ele, a exaustão do solo e a erosão. No Rio de Janeiro, a presença da Família Real transforma a paisagem. Com a corte, em 1808, vieram 20 mil portugueses e muitos outros migraram nos anos seguintes, ampliando plantações e descobrindo novas áreas. A expansão da cidade do Rio de Janeiro se volta para os morros, que se tornam instáveis sem a floresta e sob chuvas tropicais. A partir de 1811, ocorrem grandes desmoronamentos, cobrindo o Rio de Janeiro de lama vermelha. O microclima muda e a disponibilidade de água potável diminui. Em 1823, a primeira proposta de recuperação ambiental cabe, de novo, a José Bonifácio, que propõe à Constituinte a proteção das florestas e o replantio de árvores. Seguem-se anos de grandes secas e crise de abastecimento de água no Rio de Janeiro. Em 1850 tem início a imigração européia para o País e a consolidação das fronteiras nacionais, com grande expansão cafeeira pelo interior dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Regiões inteiras perdem a cobertura vegetal. Floresta em pé é sinal de incivilidade, de sujeira, uma inimiga a ser vencida. Em 1861, Dom Pedro II manda plantar e conservar as florestas Tijuca e Paineiras, a única experiência governamental em grande escala de reflorestamento de nativas. E bem sucedida! O século XIX termina com secas, erosões e mais transformações da paisagem do interior, com grandes perdas de biodiversidade e habitats. Os primeiros desmatamentos de grandes proporções para instalação de fazendas ocorrem no baixo rio Amazonas, na chamada Zona Bragantina, no Pará. Nos primeiros anos do século XX, a devastação acelera e toma proporções brutais no Paraná e em Santa Catarina, onde se instala a Southern Brazil Lumber & Colonization, a maior serraria da história da América Latina. Em poucos anos, a floresta de araucárias é dizimada e a Lumber deixa para trás graves prejuízos ambientais e desigualdades sociais. Na Amazônia, dá-se o ciclo da borracha e quase se extinguem os peixes-boi, mortos aos milhares. Dóceis e indefesos, eram abatidos para fornecer óleo e carne, com possibilidade de serem mantidos em pequenos cercados, como reserva de carne viva. Em 1937, é criada a primeira unidade de conservação federal: o Parque Nacional do Itatiaia, na divisa Rio de Janeiro-Minas Gerais. O marechal Cândido Rondon faz o reconhecimento e ocupação do interior do País, enquanto a industrialização atrai migrantes do campo para a cidade. A partir de 1960 e ao longo dos anos 70, a integração nacional é a palavra de ordem e o progresso segue para o norte e para o oeste, com a construção das grandes hidrelétricas e das estradas Belém-Brasília, BR-364, Transamazônica de onde até hoje partem os principais agentes de devastação amazônica. Os incentivos fiscais inserem grandes empreendimentos e grandes fraudes ambientais no cenário da Amazônia. Os cerrados são gradualmente ocupados, descobertos como a nova fronteira agrícola. Organiza-se um grande levantamento dos recursos naturais com base em imagens de radar o Radam Brasil referência até hoje, mesmo com a precisão e a profusão das imagens de satélites ambientais. Nas regiões industrializadas do Brasil, a poluição passou a ser oficialmente bem-vinda. Implantaram-se empresas estrangeiras sem os mesmos cuidados ambientais, que já existiam em seus países de origem. Do descontrole governamental sobre a indústria nascem aberrações como o Vale da Morte, em Cubatão, São Paulo, cujo símbolo mais trágico são as crianças nascidas sem cérebro e a explosão do gasoduto na zona residencial operária de Vila Socó. Ganha força, na mídia e nas ruas das grandes metrópoles, um movimento ambientalista de reação ao desmatamento e à poluição desenfreados. |
|