
EXPOSIÇÃO
O Recife
mal pode esperar para se ver em Albert Eckhout por Carol Almeida
Recife recebeu neste
último final de semana parte de uma história que se
passou na cidade há mais de três séculos. A
exposição O Brasil e os Holandeses, em cartaz no
Espaço Cultural Bandepe, cristaliza a maior fatia do
legado dos anos do governo Maurício de Nassau com telas
de Frans Post, o trabalho documentado de Gaspar Barléus
e objetos datados de então. Mas como 24 anos (o tempo em
que os holandeses permaneceram na capitania de
Pernambuco) não caberiam em um só evento, já está
programada para 2002 a exposição que, em se tratando de
recuperação histórica, será o mais importante e nobre
acontecimento em artes plásticas do Estado. A obra
completa do holandês Albert Eckhout produzida em terras
brasileiras retornará a sua paisagem original. Será a
primeira vez que todos os quadros do pintor sairão da
península dinamarquesa desde 1658, quando o Conde
Maurício de Nassau presenteou estas telas ao Rei da
Dinamarca, Frederico III.
Quem garante isto é o
dinamarquês Jens Olesen, coordenador do projeto que já
conseguiu o maior aval para a exposição: a assinatura
da Rainha da Dinamarca, Margrethe II, permitindo a saída
temporária das 23 telas que estão hoje no Museu de
Copenhague. Olesen passou as últimas quinta e
sexta-feira no Recife em uma dupla missão: fazer uma
primeira avaliação de qual seria o melhor espaço para
receber o trabalho de Eckhout e convidar oficialmente o
governador do Estado e o prefeito da cidade do Recife a
entrarem para o comitê da exposição, já integrado
pelo vice-presidente da República, Marco Maciel.
A organização da mostra
está orçada em cerca de U$ 2 milhões e será
patrocinada por quatro grandes empresas, cujos nomes
ainda não podem ser divulgados. Por isso, não haverá
economia nos gastos que começam a sair do caixa ainda
este ano, com a equipagem do pré-requisitos de
instalação dos quadros. Para se ter uma idéia da
produção desta exposição, basta transcrever o roteiro
que as telas terão de fazer de Copenhague até Recife:
transportados em quatro aviões diferentes, os quadros
chegam a Pernambuco dentro de caixas climatizadas. As
caixas serão guiadas até o local da mostra em
caminhões igualmente climatizados. Quando chegarem ao
espaço, as telas passam 24 horas dentro destas mesmas
caixas fechadas. Depois, mais 24 horas com as caixas
abertas. Somente então, os trabalhos podem sair de seus
casulos para o ambiente externo que, por sua vez, terá
uma temperatura entre 22 a 26º e uma umidade não maior
que 55.
E a cota mínima de
segurança não pára por aí. Durante a mostra, não
poderá haver um número muito grande de pessoas dentro
do espaço, pois isso eleva a temperatura. Haverá uma
estação fixa de bombeiros e da Polícia Militar
vigiando o local, que estará observando a tudo e a todos
com microcâmeras. Nós temos tempo hábil de
correr para conseguir tudo isso, assegura José
Carlos Vianna, presidente da Fundação de Cultura.
Durante a visita ao Recife, Olesen visitou alguns lugares
importantes do Recife como o Mamam e o Armazém 12, que
está ainda em reforma e é o provável local da
exposição. Tudo será decidido no segundo semestre
deste ano, quando um grupo de seis a oito pessoas da
Dinamarca, entre técnicos e curadores, virão ao Recife
analisar a infra-estrutura do espaço.
Esta com certeza
será a mais importante exposição que o Recife já
recebeu, estima nem um pouco modestamente Jens
Olesen. O ano de 2002 foi escolhido por ser uma data
redonda, 350 anos, da partida de Eckhout do Brasil. Os
curadores da mostra, que chegará somente ao Recife,
serão Ellen de Vries e Peter Tiabbes. Trazer esta
exposição para cá é um sonho meu de anos,
confessa Olesen.
DOCUMENTOS DA
NATUREZA Albert Eckhout está longe de
ser um nome de referência na pintura holandesa. Ofuscado
pelo talento de grandes mestres como Rembrandt e Rubens,
sua arte foi classificada durante muitos anos como apenas
um retrato com ecos renascentistas da fauna e flora
brasileira. Hoje, seu trabalho é reconhecido pelos
críticos não apenas como uma documentação dos
personagens e frutas autenticamente brasileiros, mas como
um extrato do deslumbramento tropical, pincelado com
detalhes minuciosos, o forte de Eckhout.
Soldado do exército de
artistas e cientistas que desembarcaram em 1637 na bagagem
de Maurício de Nassau, Eckhout era um jovem de 30 anos
de idade quando avistou as terras da capitania de
Pernambuco. Assim como o colega Frans Post, ele tinha a
missão nassoviana de registrar o Novo Mundo. E o fez com
uma precisão pouco encontrada nos quadros produzidos no
Brasil até então. Os índios tarairiu, tupi, os negros
guerreiros, a mameluca, o mulato. Todos esses personagens
foram protagonistas dos quadros de Eckhout, definido por
muitos como um pintor essencialmente naturalista.
Seus modelos são
condensações do exotismo que os europeus tanto
apreciavam para ornamentar seus castelos. A mameluca não
é apenas uma mameluca, mas sim uma realidade fantasiada
de como os brasileiros eram supostamente vistos pela
nobreza européia. A tela Índio Tarairiu traz em um só
momento a representação maquiada por cordões e
ornamentações do índio, e elementos detalhistas como a
lagarta-de-fogo na mão direita do modelo, uma jibóia
(provavelmente morta pelo caçador) e uma aranha
caranguejeira. Todos esses componentes fazem do quadro de
Eckhout mais do que uma expressão artística, e sim uma
enciclopédia ilustrada do Nordeste brasileiro no século
XVII.
Quando partiu do Recife de
volta à Holanda, Eckhout perdeu toda a inspiração
naturalista e passou a pintar quadros encomendados à
nobreza européia. Provavelmente, com sua volta a
Holanda, ele perdeu toda atmosfera exótica que o
transformaria no maior decodificador da natureza
brasileira. De qualquer forma, o conde Maurício de
Nassau, o Rei Frederico III e toda iniciativa de
preservação da memória agradecem.
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