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ENTREVISTA/ Lenine
O HOMEM FELIZ DE MAIAKOVSKI

José Teles

Lenine anda de agenda lotada. Já sabe, por exemplo, onde estará em fevereiro de 2001. Fazendo show na Rússia. Definindo o atual estágio de sua carreira como um caminhão descendo uma ladeira na banguela, ele vem cumprindo uma intensa série de compromissos, que nas últimas semanas o levaram a São Paulo, para participar do Heineken Concerts com músicos argelinos, trabalhar na direção musical da minissérie global, A Invenção do Brasil, continuar uma pesquisa nos arquivos da BMG em busca da obra de Ary Lobo, que ele pretende homenagear em um disco-tributo, e para uma curta turnê na Europa, esta semana. Ele concedeu entrevista ao Jornal do Commércio, em Salvador, no dia em que chegou para participar do VII PercPan, ao lado do grupo Pife Muderno.

JORNAL DO COMMERCIO – Você tem viajado muito para o exterior. Aliás, viaja para a Europa agora, depois do PercPan, como sua música é vista lá fora?
LENINE
– Tem a coisa do idioma, mas a música é o esperanto, todos conseguem entender, e acho eles entendem porque não faço regionalismo. Na verdade, estou mais próximo de um Asian Dub Foundation do que de um Gilberto Gil. Eu não ouço mais Gil porque já estou impregnado de Gil. Aliás, hoje escuto pouco disco, posso dizer que ouço mais João Cabral, Stanley Kubrick, ouço mais imagem.

JC – Qual a importância desta sua penetração no mercado externo?
LENINE
– Acho importante, mas há outras prioridades. Por exemplo, eu nunca tinha ido a São Luís do Maranhão. Não tinha idéia de como seria recebido lá. Fui fazer o show e havia mais de mil pessoas, sabiam as letras. Na verdade, sem querer dar uma de bonzinho, o que me toca é fazer música pra brasileiros. Prestígio pra mim é bala de coco, e eu ando meio diabético. Volto da Europa semana que vem, e faço pela primeira vez shows no Sul do País, pela primeira vez vou cantar em Porto Alegre.

JC – Você de repente entrou num circuito que exige viagens constantes, em que isto está afetando sua vida familiar?
Lenine
– Pois é. Durante muitos anos cumpri o papel de ‘pãe’. Minha companheira é uma produtora conhecida de TV, então eu fiquei em casa cuidando dos filhos, segurando a onda por muitos anos. Agora chegou meu momento. Vou passar três meses em turnês pela Europa, e ela teve que pedir licença da Globo. Mas isto é o máximo que falo da minha família, que é a minha droga mais poderosa. Admiro a coragem de Caetano em se expor. Outro dia a revista Caras me fez um convite para abrir minha casa pra eles. Falei que tudo bem, e mostrei a eles o Recife, a minha cidade.

JC – E como está seu projeto de gravar Ary Lobo?
LENINE
– Neste últimos 20 anos já testemunhei três redescobertas de Jackson do Pandeiro. Ele foi muito bom, genial. Só que parece uma coisa única, solitária, porém neste universo houve mais gente, como Ary Lobo e Gordurinha, trabalhando com os mesmos elementos, com o mesmo talento. Jackson apareceu mais porque teve aqueles filmes ao lado de Almira Castilho, na televisão. Minha pesquisa tá bem avançada, até porque a BMG tem praticamente tudo que ele gravou, já escolhi as músicas que pretendo cantar, de um cara que teve muita importância, com sucessos feito Caranguejo Sá, Súplica cearense, Eu vou pra Lua, muita coisa boa.

JC – Na Pressão foi o disco que deslanchou de vez sua carreira?
LENINE
– Foi, mas não consigo dissociar Na Pressão de uma trajetória que veio segmentando-se ao longo dos anos, dos meus outros discos. Acho legal chegar agora com mais maturidade. Mas não posso esquecer que sou cabeça dura. Respeito sempre: faço música para agradar meus parceiros: Lula Queiroga, Dudu Falcão, Bráulio Tavares, à minha companheira, tudo eu faço é pensando na aprovação deles.

JC – Como está havendo uma queda na vendagem de um tipo de música mais popular, axé, pagode, você acha que haverá mais mercado para quem faz uma música feito a sua?
LENINE
– O mercado tem este vício: só tem visão para os milhões, e não vê os milhares. Mas as vendagens realmente estão sendo mais bem distribuídas. Acho até que as rádios vão demorar em perceber isto. No Brasil, houve um fenômeno curioso em relação às rádios. Antigamente elas pertenciam a grupos familiares, tipo Mayrink Veiga, então elas tinham compromisso em divulgar a música como um todo. Hoje, a quem pertence as rádios? Na época dos cinco anos para Sarney emissoras foram dadas como presente...

JC – Você comenta que está com a agenda lotada, mas há uma enorme quantidade de discos com participações suas. Onde você consegue tempo?
LENINE
– Eu não sei recusar. E há alguns, eu nem posso recusar. Por exemplo, Zé Rocha, parceiro de longas datas, está fazendo um disco, e eu participo. Lula Queiroga também está fazendo o dele, e vou botar voz. No da Velha Guarda da Mangueira, nem poderia recusar, porque tenho livre trânsito entre eles há muito tempo. No CD do Pife Muderno também nem pensar em ficar fora, convivo com Carlos Malta praticamente desde que cheguei no Rio.

JC – Você passou a ser conhecido no Recife a partir de Olho de Peixe, que está fora de catálogo mas é bastante procurado até hoje. Algum projeto em relançar o disco?
LENINE –
Os direitos dele me pertencem. O disco continua disponível, só que pelo meu selo Mameluco. Mando fazer edições pequenas, que vendo em apresentações, e a lojistas realmente interessados em vender este tipo de música, que tenham afinidades com ela. Vendendo mil cópias de uma edição bancada por mim, é muito mais lucrativo do que vender 15 mil de um disco que sai por gravadora

JC – Mas você não pensa em um lançamento em maior escala do disco?
LENINE
– Ano que vem vamos ter um edição especial de Olho de Peixe, será um CD duplo. Um será o CD original, e o outro disco, o registro extraído de uma temporada, de quatro dias, que vamos fazer, em janeiro de 2001, no Teatro Cecília Meireles, no Rio.

JC – Você parece gostar cada vez mais do que faz...
LENINE
– Maiakovski tinha uma frase mais ou menos assim: ‘Em algum lugar do mundo, talvez no Brasil, existe um homem feliz’. Eu sou um felizardo, não sou exemplo, mas exceção de algo. Tirei a sorte grande, tanto no processo solitário, que é criar a música, quanto no processo de parceria, que é fazer shows, o disco. Me considero este homem feliz de que Maiakovski falava. (Havia mais assuntos a perguntar, mas Gilberto Gil apareceu na sala e carregou o homem feliz de que Maiakovski falava para ir almoçar com ele em sua casa.)

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Jornal do Commercio
Recife - 18.04.2000
Terça-feira