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ESCRITA
As In(ter)venções de Amílcar

Depois de sua premiada dedicação como escritor de ficção, Amílcar Dória Matos iniciou ano passado um novo estágio na sua carreira, o de poeta. O resultado foi o belíssimo A Palavra Escassa, um livro no qual Amílcar decorreu sobre os vários caminhos que a palavra pode percorrer para chegar e emocionar o leitor. Experiente com as letras, Amílcar decidiu entrar nesse novo terreno sabendo que, na poesia, os recursos do poeta são menores do que de outros tipos de escritores. Afinal, o poema não comporta o mesmo ‘espaço’ de tempo e terreno que um romance e um conto. Tudo é curto, rápido e a necessidade de ser certeiro é mais exigida. Por isso, a ‘escassez’. Quando um verso consegue atingir um leitor, é como um soco, que dependendo da força, pode alimentá-lo até o fim da vida.

Após a bem-sucedida estréia, Amílcar volta agora com In(ter)venções, no qual o problema com as palavras volta a ser o seu assunto. Dessa vez elas não são escassas. São amplas, tão amplas que uma acaba tornando-se outra subitamente, sem maiores explicações.

Só que Amílcar não escreve poemas para simplesmente ficar brincando com as palavras, pelo contrário. Ele ‘brinca’ com as sílabas e com os sentidos que esse jogo pode derivar para falar de coisas sérias, pesadas. São pequenas reflexões sobre a idade, a dor, o amor e as perdas do cotidiano. Um bom exemplo é o seguinte poema: “A mortalha do amor/ Há mortalha no amor/ O amor tece a malha/ O amor talha a sorte/ A morte talha o amor/ Amor-mortalha/ Mortalha-mor”.

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Jornal do Commercio
Recife - 18.04.2000
Terça-feira