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500 ANOS
Simpósios revisitam a pátria-mãe

por Mário Hélio

Minha pátria é a língua portuguesa. A expressão de Fernando Pessoa perdeu “no uso todo o metal”, e motivou uma polêmica, nesta semana, entre o principal nome dos cultuadores do autor de “Mensagem”,na Europa, Antonio Tabucchi, e os portugueses que esperavam sua participação no Salão do Livro de Paris. Não é a única nem a última controvérsia que envolve os festejos dos quinhentos anos e, sobretudo, a tal lusofonia, vulgarizada ou banalizada, sem que a maioria saiba propriamente o que significa.

Dias desses, o historiador Evaldo Cabral de Mello disse a um amigo pernambucano já estar farto dessas efemérides, os únicos momentos em que alguns brasileiros parecem usar para cuidar de si mesmos ou do que lhes seja mais alheio. A história para tantos não é uma coisa de vida, e sim das datas. De preferência aquelas que forem inteiras. Mas, como na prece do brasileiro, de Drummond, “de qualquer maneira, é uma lembrança”.

Neste mês, dois eventos se destacam entre os que analisam por vários ângulos os 500 anos das descobertas. Um, em Pernambuco, outro nas Alagoas. O Simpósio Internacional “Brasil 500 Anos: Caminhos da História, Síntese de Culturas”, promovido pela Funeso (de Olinda), e pela Universidade Federal de Alagoas. O evento será no campus A. C. Simões (em Maceió).

Esse simpósio pernambucano-alagoano, que foi idealizado pelas professoras Zuleide Duarte (Funeso) e Gabriela Cardoso (Ufal), também pode ser acompanhado pela internet, no site http://www.ufal.br//forumdasnacoes. Nos seis dias do banquete os participantes podem estudar desde o imaginário dos jesuítas ao filme “Central do Brasil” (leia fragmento de texto sobre isto na página 3). Ha o acordo ortográfico entre o Brasil e Portugal, explicado por um espanhol. As diferenças entre o português e similaridades entre o português europeu e o brasileiro, por uma professora chamada Aizawa Kato. Fala-se também das polêmicas literárias entre os de aqui e e os de lá do Atlântico, de 500 anos e a crítica literária. Na Universidade Federal de Pernambuco, por iniciativa do professor Severino Vicente da Silva, o Departamento de História promove o seminário “Um país de Abril”. Em cada um dos séculos do país, mestres e doutores destacam um acontecimento importante e situam-no, dentro do contexto do meio milênio.

Saudável, portanto, que um país tão perto ainda de seus ditadores de estimação, de tão pouca liberdade real, volte-se para a sua história. Queira encontrar um pouco de memória e identidade e os seus correlatos (apesar da maior parte das instituições que cuidam disso estarem caindo aos pedaços). As editoras, por exemplo, estão derramando no mercado uma infinidade de títulos a propósito desses quinhentos. Um dos destaques é o livro do jornalista Walter Galvani, “Nau Capitânia” (Record, 308 pp., R$ 30,00), que acaba de ser lançado, no Rio de Janeiro.

O livro nada mais é que uma ambiciosa tentativa de biografar aquele que durante tanto foi símbolo da pergunta lugar-comum para significar a ignorância de quem não soubesse a resposta: “quem descobriu o Brasil?” Hoje, que o país já não quer tão ansiosamente assim ser descoberto, ou até prefere estabelecer marcos onde teria começado a sua expoliação (a Bahia e a cidade do Cabo disputam essa honra de bastardos) Pedro Álvares Cabral talvez já não seja muito popular. Talvez seja apenas mais um nome, entre tantos que foram despejados como água nestes meses em que a propósito de tudo e de nada se contou que o Brasil completou meio milênio.

Em cinco anos de pesquisa, Galvani vasculhou arquivos, leu mais de trezentos lilivros para dizer quem foi e o que fez Pedro Álvares Cabral. Mostra a sua inimizade com Vasco da Gama e outros que decidiram “pelas vastidões aquáticas seguir”.Sabe-se também que Camões, que teria viajado a Índia, numa nau comandada por um dos seis filhos do navegador, nunca escreveu nenhuma linha sobre ele, nem deu qualquer importância ao descobrimento do Brasil. Fernando Pessoa (o super ou sub-Camões) também não viu qualquer glória no “achamento” do país, mas citou esse marido de Isabel de Castro, que morreu no ostracismo, que conheceu o exílio. Dirigiu ao país um ultimatum: “blague de Pedro Álvares Cabral, que nem queria te descobrir”. Foi também no Brasil, lugar privilegiado para o degredo, que Pessoa também exilou o seu “heterônimo” em que o português era mais castiço: Ricardo Reis, médico monarquista que, como o seu criador, preferia moças para sonho e não para as amar.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.04.2000
Segunda-feira