500 ANOS II
Filhos
da mátria definem o Brasil ambíguo: aquém e além do
Édipo por
Maria Helena Varella*
Em sua atlanticidade,
Portugal é voz da terra ansiando pelos mares, pela
aventura dos descobrimentos, o que cedo determinará a
falência dos velhos códigos perante os fluxos que
constantemente atravessam seu corpo social, impondo-lhe a
viagem mais do que a sedentarização, o triunfo dos
Gamas sobre os velhos do Restelo, a conquista da
mobilidade, mais do que a exiguidade dos limites
territoriais. Os empreendimentos destinados a conciliar a
atividade marítima com o Estado foram sempre difíceis,
culminando na insatisfação paranóica de D. Sebastião
e no desastre de Alcácer, misto de
desterritorialização aventureira e
reterritorialização anacrônica, redundando na perda da
independência, a possessio maris
sobressaindo de uma bellum sine ou cum
bello, o modelo da mátria de filiação extensiva
e alianças pródigas do modelo excludente, disjuntivo e
codificador.
Num Estado segmentarizado
e de brandos costumes, o Deus, pátria, autoridade, será
sempre exógeno, pontual, quando não resultante de uma
sobrecodificação metafísica em momentos de crise.
Pois, mesmo que a
história tenda a verter-se, metafisicamente, numa
meta-história, reportar-se-á sempre, mais à
destinação da mátria, do que à fundamentação de um
poder de Estado, mais a um quinto império
(lingüístico-cultural) do que a um imperialismo
territorial.
A glória de mandar e a
vã cobiça são acontecimentos descontínuos e
irregulares em nossos brandos costumes, já que a
história se alimenta, outrossim, do Acontimento,
miticamente inscrito em nosso inconsciente coletivo,
missão mais paraclética e heterodoxa, do que espírito
de cruzada, ortodoxo.
Sempre além de si,
Portugal, funda territorialidades conectando-as,
lingüisticamente, culturalmente. Será sobretudo no
Brasil, que, encaixando-se na chora inaugural
de uma natureza pletórica, esse útero primordial dos
ameríndios, a colonização portuguesa se fará sentir
como essencialmente matriarcal e inclusiva.
Nação-mátria, terra
marítima, movimento, sua possessio maris é
desejo plástico, língua mais do que polis,
sua descodificação física compensando-se nas
sobrecoficações míticas, metafísicas, com suas
Histórias de Futuro recheadas de Quintos
Impérios, Desejados e Encobertos, missionarismos e
messianismos.
Periférico na Europa e
centro de um império móvel, sem um autêntico
Ursaat, Portugal não se impôs como Édipo
que subjuga, mas como mátria que aglutina, por isso
mesmo, fonte de identificações precárias e
miscigenações pródigas. Da Geração de 70 à
República, ora é ainda um Ursaat que se
reclama, sobretudo os mais estrangeirados, ora é a velha
mátria que se evoca, como na Renascença
Portuguesa.
Ao contrário dos
colonizadores de língua inglesa, os portugueses não
transportaram suas territorialidades soberanas, puritanas
e familistas, mas em nome de um paracletismo religioso e
laicismo heterodoxo, sua charitas ultrapassou
a filantropia dos pais e a religiosidade excludente das
ortodoxias, numa conjuntio oppositorum
paradoxalmente atuante e miscigenadora.
O reino do Espírito
Santo, chora ambígua, lugar já terceiro,
traziam-no no coração, mais do que na cabeça, sendo
esta figura da Trindade, um arquétipo essencialmente
conjuntivo e mediador. Acentrados e elípticos, mais do
que razoavelmente euclidianos, a paradoxia foi a sua
formula mentis, característica dos
pequenos-grandes senhores que eram, simultaneamente na
cauda da Europa e descobridores do mundo, seus Cristos,
eternamente meninos, e virgens matriarcais, seu
ateoteísmo híbrido e religiosidade heterodoxa,
propensos à plasticidade e ao sincretismo, tudo isto
subordinado a um logos essencialmente poético e
heterológico, expressando-se tanto na brandura ética e
conceptual, quanto na fragilidade das leis.
Por isso, os filhos
permanecem imaginariamente indiferenciados relativamente
a essa pátria, simultaneamente mãe e colonizadora,
assumindo-se o símbolo paterno pela falibilidade e
fragilidade, carecendo a maior parte das vezes de
recorrer ao extrínseco, não necessariamente exterior
(Inquisição), para se impor como lei. Assim sendo,
sobretudo no caso do Brasil, parece-nos mais certo falar
de fenda matricial do que de falta, muito menos de culpa,
que a grande herança do colonizador foi uma mátria
língua, plástica e aglutinadora, à qual permaneceram
mais ou menos fiéis em suas pequenas e doces
infidelidades, não uma pátria edipiana. Ora esta
indiferenciação imaginária como mátria portuguesa, se
inibidora de culpa, é, porém, determinante de
identificações precárias, heróis sem consciência,
povo que falta, magmas mais do que cristais, naturalmente
expressivos de sentimentos a-edipianos mais do que
anti-edipianos. O pai sempre a haver, tanto para o
colonizador como para o colonizado, apenas se insinua
pela ausência, desejando-se porque não se tem.
Enquanto a literatura
norte-americana, com seus filhos sem pai, homens sem
particularidades e heróis originais, se constrói sobre
as ruínas da função paterna, contra o Édipo europeu,
o herói e anti-herói brasileiro, de Macunaíma a
Riobaldo, é essencialmente um ser de travessia, herdeiro
do navegar de uma mátria, chora aquém das
diferenças étnicas e sexuais, mais do que da pátria
patriarcal, colonizadora em part time. Ao vazio
americano, que fez deste um filho contra o pai, sucede o
lúdico fluir do brasileiro, além do bem e do mal, pai
ausente ou desconhecido, prodigamente compensado, seja na
mátria pletórica da natureza, seja numa família
extensa, tecida de alianças e conjunções carnais,
filhos da natureza e de uma cunhã, com as quais se
fundiu e confundiu o mais matricial do sentir-pensar
lusitano. A fenda matricial, mais do que a falta, estará
presente, tanto nos devires de Riobaldo, sempre suspensos
da androginia, quanto na não consciência de Macunaíma
e, conseqüentemente, na identificação precária dos
dois, manifestando-se, positivamente, como magma virtual,
consciência poli-significativa na travessia
tridimensional de ambos.
O insconsciente molecular
brasileiro seria essencialmente rousseauniano, sem culpas
nem castração. Aquém e além do Édipo, os fluxos se
libertam, transversalmente, de uma
mátria-chora inaugural, a única que
preexiste e, por isso mesmo, persiste. Por isso, a
pátria brasileira não é uma totalidade unificada, o
Grande Significante sempre ausente, ainda que por motivos
distintos dos do pragmatismo americano, mas travessia de
fluxos e energias, determinando um Estado ambíguo e
andrógino (veja-se a expressão mamar nas tetas do
Estado), legado português, em que indiferenciadas, a
casa e a rua, o privado e o público, geram filhos do pai
ausente, porque a mátria, transversalmente onipresente,
suturando as diferenças, sempre salva.
* Maria Helena Varella
é professora da Universidade Federal Fluminense. Trecho
de comunicação que a autora apresentará no simpósio
internacional Brasil 500 anos
Caminhos da História, Síntese de Culturas, na
Universidade Federal de Alagoas
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