500 ANOS III
Cinco
séculos de um país de abril por Severino Vicente da Silva
Neste ano do quinto
centenário da chegada dos portugueses no Brasil, uma boa
parte da atenção de muita gente está voltada para os
acontecimentos dos dias 22 de abril a primeiro de maio de
1500. Durante muito tempo a imagem de Cabral esteve nos
bolsos dos brasileiros, ilustrando algumas notas com as
quais ele recebia o salário e pagava as suas contas. Os
seus feitos eram tão comentados quanto os lances de
jogadores de futebol, como Leônidas e Pelé. Pois bem,
isso era em algum tempo no passado. Hoje alguns valores
mudaram, outra perspectiva histórica deve acompanhar
esse debate sobre os quinhentos anos da chegada dos
portugueses, apresentado pelos meios de comunicação
social, como sendo o momento fundador do Brasil.
Procurando entender melhor
o que se comemora neste ano, ou dando uma visão mais
global no processo de formação do Brasil, tomamos o
mês de abril como mote e fomos procurar o que foi
vivido, em alguns dos meses de abril desde 1500, e o que
contribuiu para a formação do Brasil. O primeiro desses
meses é, evidentemente o de 1500. Este acontecimento nos
leva, quase que automaticamente aos esforços portugueses
para estabelecer novos rumos ao seu comércio e a sua
definição como potência marítima, no período em que
as cidades italianas dominavam o comércio de produtos
comprados no Oriente e distribuídos na Europa. Portugal,
havia já há algum tempo se estabelecido como um Estado
moderno, com o governo centralizado e, portanto capaz de
arrecadação de impostos, de forma que poderia investir,
assegurando um maior lucro para seus comerciante e para a
Coroa. Embora não tivesse um excedente populacional,
Portugal contava com uma população aguerrida, possuída
por um espírito cruzadístico, proveniente da luta de
afirmação nacional e da luta contra os mouros,
abençoada por diversos papas.
Quando aqui chegou, Cabral
encontrou uma população que, logo no primeiro instante
viu negada a sua existência e, para ela foi posta um
objetivo português: Salvar esse povo para a fé cristã.
Neste objetivo português estava selado o destino
daqueles povos. Forçosamente eles teriam que abandonar
seus hábitos, seus costumes, suas crenças, suas formas
de organização social e política, embora disso eles
não tivessem consciência.
Um segundo abril que nos
chama atenção é o abril de 1649. O fato que tomamos
para refletir é a batalha ocorrida no Monte dos
Guararapes, parte do conflito instaurado entre habitantes
de Pernambuco e holandeses que aqui estavam
estabelecidos, quase definitivamente, desde 1637, com o
desempenho militar do príncipe Maurício de Nassau e
Siegen. Isto nos leva a entender que este abril está
ligado ao processo de formação do Estado Holandês,
então em guerra de independência contra o Império
espanhol.
O abril do terceiro
século do império português em terras americanas é o
abril de 1792. Este é o abril mais celebrado: o abril da
Inconfidência Mineira, como dizem os manuais escolares.
O seu título já mostra a permanência portuguesa, pois
assume que os que pretendiam, de alguma forma, tornar o
Brasil independente, como traidores. O abril de José
Joaquim da Silva Xavier é decorrente da crise do sistema
colonial português, do seu esforço para superar-se e
modernizar-se, de forma que viesse a impedir as
veleidades de independência que viessem a ter alguns
setores da colônia.
No século XIX chama
atenção o abril de 1831. Nele ocorre uma grande
manifestação popular, acompanhada por setores da elite
brasileira, contra o arbítrio de um que pretende
impor-se, não pelo serviço, mas pela arrogância e
pelas armas. Mas até estas o abandonam. Em 1831 parece
ser um momento de definição de nacionalidade, bem maior
do que o setembro de 1822. O mito criado pelo grito do
Ipiranga, cai pelo grito do povo em Santana. Um momento
de participação das diversas camadas em repúdio ao
arbítrio volta a colocar em debate qual será o Brasil
que se pretende construir. Dez depois, definiu-se a
vitória contra os que primeiro foram à praça.
Neste século XX, dois
são os abris. O de 1964, que emperra uma revolução
social, econômica, política, cultural. Promove o
estancamento de um processo participativo que, embora
trouxesse em si alguns equívocos, apontava para uma
maior participação do povo brasileiro na sua história,
como agente ativo e não da passiva. Muito deixou ser
realizado, ou foi realizado de forma a não permitir
maiores criatividades. O abril de 1964 é a vitória de
uma contra-revolução. Algo ficou partido em um abril
que demorou a ser superado.
* Severino Vicente da
Silva é professor do Departamento de História da UFPE
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