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POESIA
A máquina de acordar os sentidos

por Jacineide Travassos*

Escrever poesia e sobre poesia é tarefa difícil, uma luta de esgrima ou mesmo um exercício semelhante ao do dançarino que partiu mil vezes os ossos em segredo, antes de se apresentar em público, para aludirmos às metáforas, sobre o ato criador, empregadas por Baudelaire. Cremos ser o livro um mundo (à la Barthes).

Tocar um texto para além dos olhos, com a escrita, é remetê-lo à instância criadora que o gerou, para o labor da própria linguagem. Porém, a leitura crítica pode nos conduzir, em um segundo momento, a um extremo prazer escritural se o poeta souber “rebuscar” – buscar com insistência – o material com o qual organiza sua obra: as palavras. É o caso do escritor Jairo Lima, autor do solene – “solemnis” viria de “solus amnus”, o que acontece uma vez por ano, raro – “Livro das Árias e das Horas & Pequeno Livro das Nuvens”.

Mas o que há de raro nesse livro? O fato de ser, “ipse literi”, poesia. A sistematização de um texto poético obriga-nos a repensar a questão dos gêneros, visto que a teoria literária não chegou a um consenso, ainda que seja vasto o universo da crítica.

Não muito tempo distante, na década de 60, sob a égide do Estruturalismo, Todorov perguntava-se: “subtraindo o verso o que resta da poesia?” Desde a Antiguidade é sabido por todos que o verso não faz a poesia, o que é testemunhado pelos tratados científicos escritos em verso.

Já na Grécia dizia Aristóteles, em sua “Poética”: “Se alguém compuser em verso um tratado de medicina ou de física, esse será vulgaramente chamado ‘poeta´; na verdade, porém, nada há de comum entre Homero e Empédocles, a não ser a metrificação”. Mas Aristóteles admitia, irrefutavelmente, a ligação da literatura com a música, a exemplo da poesia ditirâmbica que privilegia o código musical, daï a expressão “entoar ditirambos”.

Ao longo da História são muitas as referências que podíamos citar, no entanto lembraremos, ainda, a “Chamson de Roland” e o “Cantar de Mio Cid”, que figuram entre os mais antigos textos épicos da Idade Média (sécs. XI a XII), pela representação explícita do binômio texto-música.

O “Livro das árias e das horas”, a partir do seu título, insinua uma incursão pelo campo da música. Em um primeiro nível de leitura ou significação (sentido óbvio), inferimos que o sema “árias”, se recorrermos ao glossário de termos musicais, a priori, trata-se de um dos elementos da ópera, designa a peça cantada por um só personagem (solista) sem nenhuma intervenção importante de nenhum outro, mas esta conheceu várias formas no decurso da história da música. Frisamos que a voz poética não só subverte a concepção tradicional da ária, como agencia, através de seus instrumentos (as palavras), sonatas, quartetos, adágios, cantos, volutas, leitmotiv, polifonias, fugas, remetendo-nos literariamente a uma modelização secundária da linguagem (sentido obtuso) que viabiliza uma homologia estrutural com a música em sua “qualia” artística primeira, ou seja, arte do tempo. Neste, inscrevem-se as “horas”.

No tocante ao “pequeno livro das nuvens”, diríamos, a saber, que este é investido, pela voz poética, da predisposição do olhar, do dimensionamento do espaço. Lembremo-nos, o vocábulo “nuvem” significa o conjunto de partículas de água ou de gelo em suspensão na atmosfera. Inferimos, então, que o poeta a partir dos elementos que escolhera para intitular sua obra já delimita, com maestria, a geometria espácio-temporal.

Encontramos definição precisa de poesia na obra de Jairo Lima. Reconhecemos neste poeta não um epígono de seus precedentes – atitude comum nos dias de hoje, em que nomeiam-se poetas meros copistas e macaqueadores de estilos e metros – mas o prógono de uma nova ordem morfológica, sintática e semântica, que lhe confere o título de arauto, senão de uma lírica nova, já que não acreditamos em vanguarda, de uma “lírica renovadora”. Cremos, como Hugo Friedrich, ser a lírica uma oposição que canta contra um mundo de hábitos, no qual os homens poéticos são homens divinatórios, magos, demiurgos. Porém, a lírica limaniana é “cosa mentale”, fruto de uma inteligência criadora que opera seu texto com a lógica da matemática, da estrutura musical. O poeta Jairo Lima visa a linguagem como expressão, nunca como comunicação. Seu métier poético é uma busca, a mesma empreendida pelos músicos, de captar a “verba volant” – a palavra articulada que se desvanece, ou seja, o som. Empreendimento plenamente entendido e justificado, no fato de ser este poeta um autodidata, profundo conhecedor da arte, sobretudo, da música. Exegeta de grandes compositores eruditos como Bach, dos desconhecidos barrocos franceses: Rameau e Couperin, Händel, Mozart, Beethoven, Verdi,Wagner, e sobretudo do complexo Richard Strauss, sua predileção em ópera.

A poesia, na verdade, é uma grande máquina de acordar sentidos e agenciar signos. Não foi por acaso que a palavra “estética” – que vem da raiz grega “aisth” do verbo “aisthanomai” e que quer dizer sentir com os sentidos, rede de percepções físicas – apareceu pela primeira vez, investida de sua significação filosófica, em um estudo sobre a poesia empreendido por Alexander Gotlieb Baumgarten (1735). Para Jairo Lima, escrever é, sobretudo, obedecer a um ritmo, persegui-lo com a pátina das consoantes e a sonoridade das vogais. Conta Paul Valéry nas “Memórias de um poema” que, inesperadamente, ritmos que lhe eram impostos antes de se articularem com os significados da frase. Apesar de ser poeta-matemático, confessa Valéry familiarizar-se muito com as idéias inesperadas, o mesmo não pensava sobre o ritmo. Citando Diderot: “Mes idées ce son mes catins”, afirma ser esta uma boa fórmula, mas não a aplicava a seus ritmos e perguntava-se o que deveria pensar deles. Jairo Lima não teria a menor dúvida, sua poesia bem nos ensina que poetizar é articular a imagem-som:

“(então) Afastei-me de ti e vi com olhos banidos o rastro de tua nave/ quando já não mais te vi vi a cal viva da tarde// em tua casa limpa os armários acordam panos e indagam do teu agora/ do teu agora lontano/ a casa vê em seus cantos/ o veio azul transpirando/ a casa vê seus perfumes/ que o vento vai confiscando/ a casa pensa suas nuvens/ em suas cores e tramas/ *penélope fia e desfia/ uma memória de ramas*// *perfi e desfi merama*// *noite e dia/ notedi/ ua merama*” (....)

A obra de Jairo Lima veicula as três dimensões essenciais à universalidade da obra de arte: o antropos, o cosmo e o logos. (....) O grande personagem desse livro é o logos. A palavra que retorna e concede à escrita caráter alegórico, aura de mito, pois no “Livro das árias e das horas & pequeno livro das nuvens” não há repetição que repita apenas. Cada retorno assinala uma progressão, um passo adiante ao limite do sentido óbvio. (....) No seu livro participamos de uma aventura estética e intersemiótica, sincronizamos os sentidos através dos efeitos fônicos, táteis, visuais e olfativos e agenciamos signos, como nos denuncia a voz poética.

* Jacineide Travassos é professora de Literatura. Este texto é excerto de longo ensaio escrito por ela para o “Livro das árias e das horas”, de Jairo Lima (Iluminuras, 130 pp.), que será lançado amanhã, às 19h, na sede da União Brasileira de Escritores, em Casa Forte

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Jornal do Commercio
Recife - 03.04.2000
Segunda-feira