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LIVRO
Vargas Llosa a sangue frio no Caribe

por José Mario Pereira

A "literatura da ditadura", como se costuma chamar a vertente ficcional latino-americana dedicada a retratar líderes autoritários, já produziu alguns clássicos: “Tirano Banderas” (1926), de Valle Inclán; “O recurso do método” (1974), de Alejo Carpentier; “Eu o Supremo” (1974), de Augusto Roa Bastos; “O Outono do Patriarca” (1975), de Gabriel García Márquez, além do pioneiro “Amália” (1851), de José Marmol, sobre a ditadura Rosas na Argentina. Chegou a vez de Mario Vargas Llosa reunir-se ao grupo ao recriar o não menos mítico Rafael Leonidas Trujillo Molina (1891-1961), ditador por 31 anos da República Dominicana, um minúsculo país de 48.422 Km2, a oeste do Haiti, no Mar das Caraíbas.

A “festa do bode” (”La fiesta del chivo”, 518 páginas, 3.200 pesetas), publicado em março pela Alfaguara, editora espanhola que está reeditando sua obra em edições revistas, enriquece a novelística do autor peruano, nascido em 1936 em Arequipa e hoje naturalizado espanhol, com um tema ainda não tratado com a dimensão agora atingida pelo autor de “Conversa na Catedral” (1969) - muito embora neste romance já aparecesse um ditador, o peruano Manuel Odría. E é a segunda vez que Vargas Llosa enfrenta um tema não peruano: a outra foi a recriação da saga de Canudos em “A guerra do fim do mundo” (1981). O livro inicia-se com a chegada, em São Domingos (ex-Cidade Trujillo), de Urania Cabral, personagem que detona o enredo. Ela retorna à pátria 34 anos depois de, com ajuda de freiras dominicanas, partir para os EUA, onde se formou em Harvard e trabalha no Banco Mundial. Neste período não teve contato com a família, nem mesmo respondeu às cartas que lhe enviaram. Não casou nem teve aventuras amorosas. Aos 49 anos vive sozinha. Seu hobby, verdadeira mania, é ler tudo sobre a época Trujillo. A notícia de que o pai - um ex-presidente do Senado e ministro da República - encontra-se numa cadeira de rodas, vitimado por um derrame, a faz retornar.

Mas Urania volta também para acertar contas com o passado. Algo de muito grave provocou sua decisão de sair do país e romper os laços com a família quando tinha apenas 14 anos. E o mistério em torno de seu passado só se desvenda no capítulo final: na tentativa de recuperar-se junto ao ditador, Agustín Cabral, caído em desgraça, deixa-se convencer pelos argumentos do melífluo embaixador Manuel Alfonso e consente em entregar a filha virgem a Trujillo, conhecido por seu "frenesi fornicatório". Mas o dramático desfecho do encontro, regado a poemas de Pablo Neruda e músicas como “Volare” e “Ciao, ciao bambina”, só acontece no último capítulo, que não contamos para não tirar a surpresa do leitor.

Vargas Llosa imprime à narrativa um ritmo de filme de aventura, com cenas arrepiantes, onde tudo é contado de modo simples, ágil e eficiente. Cada capítulo apresenta um personagem: no primeiro é Urania; no segundo entra em cena Trujillo, num monólogo; no terceiro apresentam-se os conspiradores, na tocaia, à espera do carro do "Pai da Pátria". No capítulo seguinte retorna Urania, depois Trujillo, novamente os conspiradores, e assim até o capítulo 16, quando então a crise advinda do assassinato de Trujillo ganha espaço. Urania, cuja história está nos capítulos 1, 4, 7, 10, 13 e 16, só retorna no 24 para fechar o romance, dando seu depoimento sobre a traumática experiência na Casa de Caoba, espécie de bunker onde o ditador às vezes se isolava.

O autor embaralha as histórias dos três núcleos num verdadeiro tributo a Faulkner, um de seus mestres. Conhecido como "o último realista", Vargas Llosa constrói o enredo com a habilidade que fez dele um dos maiores escritores do nosso tempo e põe o leitor em contato com a atmosfera social e política da época. Entusiasta da Revolução Cubana na juventude, ele acabou por se decepcionar com o socialismo castrista, que hoje vê como uma ditadura. Assim como Trujillo, Fidel Castro - no poder desde dezembro de 1958 - tem sido acusado de prender e matar os descontentes do regime. A análise da figura de Trujillo torna-se então a base de sua renovada e constante defesa do liberalismo e da democracia. Já no segundo capítulo tomamos contato com o Trujillo metódico, que acorda às 4 horas da manhã - nunca foi de dormir muito - veste-se com aprumo e perfuma-se com colônia Yardley; sempre teve mania de limpeza, muito embora comente-se que não sua. Dedica pouco apreço aos filhos, é fascinado pela disciplina dos marines americanos, aos quais deve o poder, e sente grande simpatia pelo playboy internacional Porfírio Rubirosa, um dos sete maridos da filha Flor de Oro; outro foi o negociante de armas brasileiro Antenor Mayrink Veiga, sogro da socialite Carmen.

Em vão tentavam intrigar Rubirosa com Trujillo: este achava que as aventuras eróticas de seu protegido mundo afora popularizavam a imagem do país e do macho dominicano. Na opinião do ditador, Rubirosa fez-se por si, usando o charme e um avantajado pênis - durante anos, nos restaurantes de Paris, chamavam "Rubirosa" ao moedor de pimenta - enquanto seus filhos lhe pareciam incompetentes: o preferido, Ramfis, enchia as mulheres de presentes caros, e Rubirosa, ao contrário, tomava dinheiro das ricaças com quem se metia. Pelo menos foi assim com Doris Duke e Barbara Hutton. Trujillo lhe deu os melhores postos da diplomacia, de Bruxelas a Paris. Rubirosa morreu em 1965, aos 58 anos, ao perder a direção de sua Ferrari na neve do Bois de Boulogne. Estava rompido com Ramfis, a quem acusou de fraqueza por ter abandonado o país após a morte de Trujillo. Frio e obstinado, o "Benfeitor da Pátria" livrava-se dos inimigos com requintes de perversidade. Em junho de 1960, ao atentar, sem sucesso, contra a vida do presidente Romulo Bettancourt, da Venezuela, provocou a morte de três pessoas; em 1956, seqüestrou em Nova York, e depois assassinou, o escritor espanhol Jesus de Galíndez; e quatro anos mais tarde mandou matar, numa simulação de acidente de carro, as irmãs Mirabel, quando voltavam de uma visita aos maridos presos. Trujillo não poupou nem mesmo o médico que lhe deu um diagnóstico errado: depois de examinado por outro especialista, que negou o câncer de próstata, mandou matar o primeiro.

Trujillo era tão implacável no seu priapismo que não deixava escapar nem mulheres casadas: quando se encantava, o marido era aconselhado a ceder (e os áulicos até se sentiam homenageados). Ao saber que o ditador aparecera em sua casa quando estava ausente, e a mulher se recusara a recebê-lo, o ensaísta Pedro Henriquez Ureña tratou de sair do país - numa época ainda razoável da ditadura, em que era possível escapar. À medida que envelhecia, para reafirmar a potência, mais se encantava por adolescentes. Muitas vezes aproveitava-se e depois arranjava-lhes casamento (o que se mostrava muito conveniente, pois continuava dispondo delas quando bem entendesse). O sexo funcionava como uma descarga diante do estresse em se manter no topo, e tinha pessoas de confiança para lhe arranjar encontros.

Dividido em 24 capítulos não muitos longos, “A festa do bode” faz uma radiografia de um homem permanentemente obcecado pelo poder, que não media obstáculos para conseguir o que queria. Desconfiado ao extremo, dono de um olhar ameaçador, Trujillo não se deixava influenciar. Poucos colaboradores tinham coragem de lhe dizer o que pensavam. Um deles foi o obeso e cruel Johnny Abbes García, chefe do SIM, a polícia secreta do regime, fiel escudeiro que, após o assassinato do déspota, saiu do país por imposição do presidente Joaquín Balaguer, andou pelo Canadá, fez cirurgia plástica para mudar de cara e depois trabalhou para a ditadura do Haiti, onde, suspeito de conspirar contra Papa Doc, foi exterminado com toda a família.

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Jornal do Commercio
Recife - 03.04.2000
Segunda-feira