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LIVRO II
Golpes, assassinatos e corrupção

À medida que o leitor avança no livro, vai se familiarizando com os métodos de intimidação, tortura e extermínio praticados por Trujillo e seus asseclas, que incluíam de sessões de choque e costura dos olhos, para não deixar a vítima dormir, ao requinte de oferecer como refeição ao prisioneiro Miguel Angel Báez Díaz carne do próprio filho (numa cena que lembra a poetizada por Camões no episódio de Inês de Castro, em “Os Lusíadas”). Os cadáveres dos desafetos eram jogados ao mar, numa área a que chamavam "piscina", infestada de tubarões. Trujillo ficou mais tempo no poder que o paraguaio Dr. Francia, inspiração de Roa Bastos, e que o general guatemalteco Manuel Estrada Cabrera, e só foi desbancado por Fidel Castro, o patrocinador, em 1959, da invasão da República Dominicana por um grupo de dissidentes liderado por Delio Gómez Ochoa. Numa engenhosa operação de marketing, Trujillo devolveu Ochoa a Castro, mas os que se embrenharam nas montanhas foram caçados e abatidos como coelhos.

É bom lembrar que os Estados Unidos sempre estiveram envolvidos na ascensão e queda de presidentes e ditadores na região. Com Trujillo não foi diferente: guindado ao poder pelos americanos, acabou emboscado numa operação estimulada pela CIA, que desde 1958, por intermédio do diretor Lear B. Reed, vinha oferecendo ajuda a dissidentes dominicanos. Durante a Era Trujillo, a República Dominicana foi próspera, com o comércio do açúcar rendendo milhões de dólares.

Ele era querido pelos dirigentes dos Estados Unidos, onde advogados e senadores recebiam imensas somas para fazer lobby sempre que precisasse. Foi condecorado pelo Vaticano de Pio XII e por universidades americanas. Quando do Jubileu de Prata de sua ascensão ao poder, organizou uma monumental festa a que estiveram presentes autoridades do mundo inteiro, do cardeal-arcebispo de Nova York, Francis Spelmann, ao nosso Juscelino Kubitschek.Em “A festa do bode”, Vargas Llosa maneja com virtuosismo técnico a tumultuada história recente da República Dominicana, sobretudo ao recriar personagens e diálogos de Trujillo com os subordinados. Os retratos de tipos como o "assessor" Johnny Abbes e o presidente-fantoche Balaguer - que aos 94 anos, e apesar de cego, é uma vez mais candidato à presidência - são construídos com precisão, tanto do ponto de vista biográfico quanto no que se refere à caracterização psicológica. Vargas Llosa certamente leu, ouviu e pesquisou muito para dar agora perfil tão convincente, e nada maniqueísta, de Rafael Trujillo e da época em que reinou como um verdadeiro César do Caribe. É um quase romance-reportagem, um thriller de ação com lances à la James Bond, num estilo visual e contundente. Quase todos os personagens são identificados pelo verdadeiro nome, mas não Urania e seu pai, artifícios da ficção de Llosa para trazer a história aos dias de hoje. É este o desafio maior do romancista: trabalhar a história viva e a história subterrânea, ainda recente, de um país afeito a golpes de Estado, assassinatos e corrupção. Os personagens agem e recordam o passado ao mesmo tempo em que nos fazem conhecer as peripécias da política na ilha que inspirou a expressão "república das bananas".

Para muitos latino-americanos, e os dominicanos em especial, Trujillo é um fantasma ainda muito presente, que continua a dividir opiniões. No poder, dispôs de enorme base popular e trouxe prosperidade, embora à custa de muito sangue. Quando do seu assassinato, o país, então com 3 milhões de habitantes, nada devia a nenhuma nação estrangeira, e tinha ainda 37 milhões de dólares em caixa. O velho binômio autoritarismo/modernização apresenta-se mais uma vez, provocando comparações com o Brasil do regime militar. Desaparecido Trujillo, a economia entrou em declínio. Hoje a República Dominicana é conhecida pelo merengue, o ritmo popular da região, e pelas maravilhosas praias que fazem do turismo uma das maiores fontes de renda do país.

A história dominicana é marcada por tensões políticas. Foi dominada pela Espanha, invadida pelo Haiti, e já no século passado viveu sob a ditadura (1882-1889) de Ulises Heureaux, que só teve fim com o seu assassinato. Outra tragédia aconteceu em 1978, quando o presidente Antonio Guzmán Fernández foi encontrado morto na banheira, em acidente com arma de fogo que depois comprovou-se suicídio. No século XX, os Estados Unidos invadiram por duas vezes o país, a última em 1965, quando até mesmo o Brasil mandou tropas em apoio às decisões da OEA. É sabido que o nosso país teve boas relações com Trujillo.

Durante o governo Dutra compraram-se armas produzidas na República Dominicana e enviaram-se pilotos brasileiros para treinar a Força Aérea de lá. Embora à frente das Forças Armadas já em 1924, Trujillo só começou a construir seu império em 1930, quando, com o apoio dos americanos, derrubou o governo do general Horácio Vásquez. A ousadia e a determinação do "Paladino da Democracia" em suas ações vingativas, levadas a efeito pelo implacável Johnny Abbes - figura referida mais de 60 vezes no livro, admirado pelo chefe por ser homem frio numa terra de sangue quente - aturdiram o mundo, deixando de prontidão as organizações de direitos humanos. Numa das cenas mais tensas do romance, Abbes interroga no hospital um conspirador baleado, Pedro Livio Cedeño, queimando-o metodicamente com a ponta do cigarro. Noutra, aparece ladeando Ramfis Trujillo em brutais sessões de tortura que comandou em represália aos envolvidos no tiranicídio.

No relato de Vargas Llosa, ao contrário dos ditadores imaginados por Carpentier e García Márquez, o generalíssimo Trujillo é um homem de carne e osso, "de voz aflautada", bom dançarino, sempre preocupado com a aparência. O romancista opera como um narrador ciente do vaivém da história, fazendo com que A festa do bode seja também uma reflexão e uma aposta nos valores da democracia. O passo-a-passo do atentado é recontado com a pulsação de um acontecimento real. Assistimos à emboscada, vemos o carro alvejado, Trujillo tentando reagir, e o tiro fatal de Antonio de la Maza, que o desfigurou.

Quem era Trujillo? Um egresso da pobreza que tinha vergonha dos antepassados haitianos, a ponto de, vez por outra, usar pó para embranquecer a pele; um grande manipulador psicológico e um fanático do culto à própria personalidade, que encheu o país de monumentos à sua glória, quase todos destruídos depois de sua morte. Mas também o filho dedicado que diariamente visitava a mãe (ela sobreviveu a ele, morrendo aos 101 anos em Miami), deu poder aos irmãos de que não gostava, e sabia ser generoso com quem o servia. Não era avaro como a mulher, María, mas, embora tenha amealhado uma incalculável fortuna, evitava extravagâncias. O dinheiro só lhe interessava para garantir a permanência no poder e livrá-lo com rapidez dos inimigos, que confundia com inimigos da Pátria.

O poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Enzensberger, num estimulante ensaio sobre o ditador, definiu com precisão o sistema Trujillo: "... era uma paródia. Como todas as paródias, levou ao excesso os traços característicos do original, mostrou-os na maior pureza e por isso os expôs a nu. Esse original não é senão a política que até aqui existiu, toda a política até agora vigente, como pré-histórica arte do Estado. Únicas no regime de Trujillo foram apenas sua coerência e sua franqueza. (...) gostava de servir-se de várias ideologias, mas jamais seguiu nenhuma delas. Considerava-as peças sem importância de um jogo que girava unicamente em torno do poder".

Trujillo mandou e desmandou na República Dominicana, agindo como um poderoso "chefão". Patético, contraditório, para os desafetos era a própria encarnação da "besta". Deu muita dor de cabeça ao flertar com o comunismo, não por convicção, mas por oportunismo e para fazer chantagem política com os Estados Unidos, então em pânico com a entronização do regime comunista em Cuba. O gigante do Norte não gostou da brincadeira e atiçou contra ele a ira dos fuzis. Segundo o depoimento dado em 1965 à revista Look por sua filha Flor de Oro, meia-irmã de Ramfis e Radhamés, só citada uma vez no romance, "era este o seu modo de governar: diminuindo as pessoas, fazendo com que elas se sentissem insignificantes, solapando a sua auto-estima". O "Reconstrutor da Independência Financeira" já foi tema de muitos outros livros, entre eles os romances de Andrés Requena, outra vítima do tirano, e de Aliro Paulino, La noche que Trujillo volvió (1986), além de biografias e reportagens como a de Bernard Diederich, Trujillo - “A morte do ditador” (1978), relato minucioso da conspiração e da posterior caçada aos "heróis do 30 de maio". Vargas Llosa o ressuscita agora neste livro inquietante cuja idéia perseguia desde 1975, e lhe consumiu três anos de trabalho. Ficção e história, documentário e drama, primo nobre do “Nostromo”, de Conrad, “A festa do bode” é testemunho de uma época que deixou marcas profundas na história da América Latina. Pela obra já realizada, pelo ensaísmo de cunho humanista que o vem notabilizando, e por este “A festa do bode”, não seria exagero dizer que já é hora de a Academia Sueca conceder-lhe o Prêmio Nobel.

* José Mario Pereira é editor e jornalista

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Jornal do Commercio
Recife - 03.04.2000
Segunda-feira