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Um território onde a sorte não é aliada de ninguém

O xadrez não está presente apenas como disciplina nas escolas da região. O Marista, o Selesiano e a Escola Internacional de Aldeia também contam com esta modalidade esportiva no seu universo escolar, embora de forma espontânea, disponibilizando espaço e o jogo em si, sem oferecer instrutor.

A Escola Internacional de Aldeia foi mais longe, fez das mesas de suas cantinas tabuleiros. É só chegar antes ou nos intervalos das aulas e pôr a mente para funcionar. No ano passado, a professora de informática da escola promoveu com sucesso um torneio interno através do computador. “A participação foi bastante significativa”, informa a diretora Lígia Freyer.

Mas não é só nas escolas que os interessados por xadrez podem aprender, exercitar ou aprofundar seus conhecimentos nesta área. Desde 94, o enxadrista recifense ou visitante conta com um endereço certo para se encontrar. Trata-se da Academia Pernambucana de Xadrez, fundada pelo mestre FIDE Marcos Asfora. Lá, eles se reúnem para disputar partidas animadas, em que não faltam os desafios verbais, comuns em qualquer jogo. A diferença é que ali o fator sorte é zero. Xadrez não é jogo de azar. Nele, o enxadrista tem o poder total. A vitória ou o fracasso depende única e exclusivamente das decisões tomadas por quem mexe as peças.

Flávio Henrique, professor de física, é o que se pode chamar de ‘viciado’ de tabuleiro de xadrez. Campeão Pernambucano Juvenil (88) e dos Jovens (99), ele é um dos habitués da academia. Para se ter uma idéi, o xadrez é uma atividade tão importante na sua vida que viu oito vezes o filme Lances Inocentes ou Searching for Something About Bobby Fisher, dirigido por Steven Zaillian, que ganhou o Oscar com o roteiro de A Lista de Schindler, de Steven Spielberg. “A cena em que o mestre testa a memória do menino, jogando todas as peças do tabuleiro no chão é uma grande lição”, comenta.

LITERATURA – Outro freqüentador do local é o jornalista Vandek Santiago. Sua paixão pelo xadrez o levou a colecionar livros e vídeos sobre o tema. “A bola de futebol é o item mais sinificativo para o jogador desta modalidade esportiva; para o enxadrista é o livro. Sem ele não se chega a lugar nenhum”, explica Santiago. Mas é na videoteca que ele encontra seu artigo mais venerado. “Eu tenho uma raridade, um filme de 1925, quando o cinema ainda não era falado, chamado Chess Fever, dirigido por um russo chamado Pudóvkin. Ele mostra os apuros de um homem que não consegue ver um tabuleiro sem resistir a uma jogada. Nesse círculo vicioso, sua vida profissional e afetiva sofre com isso”, conta.

Além dos aficionados, a academia também tem as portas abertas para os que desejam se iniciar no mundo da lógica e do abstrato. Aos sábados, das 8h às 12h, Emiliano Piskator ministra aulas para diferentes faixas etárias, sempre buscando estratégias educacionais apropriadas para cada um dos participantes. Um dos seus alunos mais jovens foi um menino de quatro anos, que, graças aos jogos do pai pela Internet, mostrou-se inclinado para o xadrez.

Entusiasmado com as qualidades desse esporte, Piskator crê que o xadrez deve ser ensinado para as crianças com ludismo e técnicas retiradas dos ensinamentos de Paulo Freire, em que a realidade do aprendiz não pode estar desassociada da realidade do mesmo. “O xadrez traz grandes benefícios intelectuais. Eu, por exemplo, aprendi a ler inglês e espanhol sozinho, tentando aprender novas jogadas através dos livros”, lembra.

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Jornal do Commercio
Recife - 14.04.2000
Sexta-feira