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COMPORTAMENTO
Medicina humanizada

por Julliana de Melo

A assistência médica enfrenta uma crise de confiança em relação aos serviços e atendimentos prestados ao paciente. Erros médicos, descuido profissional, prescrição excessiva de medicamentos e cirurgias desnecessárias são algumas das queixas mais freqüentes feitas pela população.

A costureira Rosália Cabral, por exemplo, foi fazer um exame oftalmológico simples, chamado fundoscopia, e se deparou com despreparo e negligência. “O médico foi extremamente grosseiro desde o momento em que eu abri a porta do consultório. Ele não ouviu minhas queixas e me tratou com desprezo”, explica Rosália.

Mesmo sem realizar qualquer exame, o médico duvidou da costureira dizendo que ela não tinha nada e acabou receitando uma lente com grau bem inferior ao seu problema de visão. “Ele queria que eu admitisse que não tinha uma disfunção visual forte e utilizava ironias para me intimidar. Foi humilhante.” Para resolver sua doença, Rosália de ir a outros consultórios, mas promete um dia voltar para o oftalmologista. “Esse médico precisa saber que não pode tratar as pessoas dessa forma. Quero levar os exames realizados e provar que eu estava dizendo a verdade”, desabafa.

Preocupados com situações como essa, alguns hospitais e instituições de saúde do Estado vêm procurando humanizar o atendimento, valorizando cada vez mais o contato médico-paciente. Uma referência nacional é o trabalho desenvolvido, em Pernambuco, no Instituto Materno Infantil de Pernambuco(Imip). Voltado especialmente para o atendimento de mulheres e crianças de baixa renda, o Imip atua nas áreas de assistência médico-social, ensino, pesquisa e extensão comunitária.

“Um atendimento mais humanizado, atencioso e dedicado é mais eficaz para o tratamento e para o fortalecimento das relações humanas”, comenta o professor Fernando Figueira, um dos fundadores e presidente de honra do Imip. Para ele, trabalhar num país onde o sistema de saúde é considerado fraco e de baixa qualidade para a maioria da população é seu maior desafio profissional e pessoal. Com 81 anos de vida e 60 de profissão, Fernando Figueira prega o pensamento de que o médico deve tudo ao pobre e que não existe atendimento filantrópico. “Quando alguém diz que atende de graça está mentindo. Na verdade, ele está tentando pagar o que deve, porque foram os pobres seus primeiros pacientes e foi graças a eles que o médico aprendeu tudo o que sabe”, ressalta.

Seguindo essa filosofia, a instituição, não-governamental e sem fins lucrativos, vem capacitando e sensibilizando regularmente 80% de seus funcionários para melhor atender os pacientes, apostando na educação como grande arma em prol da humanização dos serviços médicos. Na área de ensino, reuniões científicas e clínicas, realizadas diariamente, são abertas para os alunos das universidades, o que contribuiu para que o Imip recebesse dos ministérios da saúde e da educação o reconhecimento com o título de Hospital de Ensino Médico.

Entre os projetos considerados exemplos nacionais destacam-se o Banco de Leite, o programa de extensão com agentes comunitários, o Mãe Acompanhante (que fez do Imip o primeiro hospital do Brasil a incentivar e permitir a presença da mãe ao lado do paciente em qualquer setor do hospital) e o Mãe Canguru (através do qual bebês prematuros são atendidos fora das incubadoras, priorizando o contato pele a pele com a mãe).

Por esses outros trabalhos, o hospital recebeu o título da Organização Mundial de Saúde e da Unicef de Hospital Amigo da Criança. Os conhecimentos do Imip são repassados para todo o Brasil.

LABORATÓRIO – Diante das mudanças que vêm acontecendo, as atenções se voltam para a formação do profissional médico. A grade curricular do curso de medicina das universidades prioriza basicamente as formações técnicas e científicas. Apenas 5% das 57 disciplinas do curso de medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por exemplo, abordam temas relativos à humanização da medicina. “Existe uma preocupação nacional neste sentido. Com a reformulação geral de todos os currículos, prevista para ser feita até 2002, espera-se dar uma maior ênfase aos aspectos humanísticos da medicina, como a inserção da cadeira de ética e bioética na grade”, diz o coordenador do curso, Waldmiro Diegues Serva.

Enquanto isso, as universidades lançam projetos de extensão e apoio para incentivar a humanização. Na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade de Pernambuco (UPE), a saída foi recorrer a debates e dinâmicas de grupos entre os alunos. “Percebemos que nos primeiros períodos o aluno de medicina chegava com a idealização da profissão unida a um componente humanístico e solidário muito forte, mas que, com o passar do tempo, esse sentimento ia perdendo lugar para a técnica, para as teorias e para as pesquisas que envolvem a atividade”, explica a pediatra e professora Maria Helena Kavacs, uma das coordenadoras do projeto Clarear.

O programa, ligado à disciplina de psicologia médica, foi criado com o objetivo de abrir um um espaço para reflexão e reavaliação sobre alguns aspectos importantes para a formação das novas gerações de médicos. “Os estudantes questionam o motivo da escolha da profissão e suas perspectivas. As disciplinas isoladas privilegiam o conhecimento científico, inegavelmente fascinante, mas são falhas na hora de ensinar sobre a relação médico-paciente. Ser médico é, antes de tudo, um ato de ajuda”, diz. O resultado, segundo Maria Helena, será observado no futuro, nos consultórios.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.04.2000
Domingo