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PARTICIPAÇÃO II
Quando a arte funciona como remédio

Com projetos voltados para a arte, alguns serviços médicos apostam na humanização do atendimento e oferecem aos pacientes um tratamento interativo com pincéis, tintas, instrumentos musicais e partituras, estimulando a solidariedade e beneficiando o desenvolvimento da saúde no processo de cura.

Foi assim que a artista plástica Célia Cunha conseguiu obter auta do tratamento psiquiátrico que consumiu 11 anos de sua vida, período em que passou por vários centros hospitalares e manicômios do Estado, os quais classifica como desumanos. “Vivi um verdadeiro filme de terror. Além da alimentação e higiene serem precárias, o tratamento era baseado numa rotina de tomar comprimidos e dormir, sem o mínimo cuidado ou compaixão com o doente”, relembra.

Sem outra opção de tratamento, a família de Célia foi permitindo as internações, achando que era o melhor a fazer. Até que o contato com o hospital-dia do Núcleo de Atenção Psicosocial de Pernambuco (Nappe) mudou completamente a sua vida. Célia passou a freqüentar diariamente a instituição, mas voltava para casa e para a família todos os dias. “Longe da família e do ambiente em que vive, o paciente fica mais fragilizado. O hospital-dia apresenta-se como uma solução bastante satisfatória. A internação é considerada a última alternativa, o que, infelizmente, não acontece na maioria dos casos”, explica o psiquiatra e diretor do Nappe Marcos Noronha, que desenvolve, paralelamente, um trabalho de apoio às famílias dos pacientes.

Além de receber o acompanhamento psiquiátrico e as medicações necessárias, Célia passou a participar de oficinas terapêuticas de artes plásticas, às quais atribui toda sua recuperação, recebendo auta com 1 ano e meio de tratamento. “A Célia de ontem estava morrendo aos poucos. Hoje, tenho consciência dos meus talentos e posso, inclusive, ajudar outras pessoas a descobrirem os seus”, diz. Ela foi convidada pela instituição para ministrar oficinas de artes plásticas, voltou a estudar, é presidente da Associação de Usuários e Familiares da Saúde Mental e está preparando a sua segunda exposição, na qual retrata em 20 telas de acrílica em papel a temática do Balé Clássico.

Baseado na filosofia da arte-terapia, o trabalho desenvolvido no Nappe com o apoio de uma equipe multidisciplinar é considerado bastante eficaz. “Os resultados aparecem mais rápido e são oferecidas ao paciente condições de não só superar e expor seus problemas emocionais, mas desenvolver atividades que funcionem não só como terapia ocupacional, mas rendam emprego e possibilidades de inserção social no futuro”, diz Noronha. “O melhor remédio é o somatório de carinho, respeito, incentivo e atenção das pessoas”, ressalta Célia.

MÚSICA - Um outro projeto bastante conhecido e aprovado pela classe médica é desenvolvido, há um ano, no Hospital Universitário Oswaldo Cruz. A Escola de Iniciação Musical e Artes liderada por médicos, estudantes, integrantes do Conservatório Pernambucano de Música e voluntários, vem utilizando a música e as artes para amenizar a dor e o sofrimento de crianças com câncer em tratamento na instituição. “A escolinha consegue quebrar o preconceito, levantar a auto-estima das crianças e estimular suas potencialidades artísticas. Muitos se revelam músicos natos”, explica o médico e professor universitário Paulo Barreto Campello, idealizador do projeto.

A parceria da Universidade de Pernambuco (UPE) e do Conservatório Pernambucano de Música ainda dá continuidade ao projeto Música é Vida, que completou quatro anos de muita atividade, levando música aos hospital Oswaldo Cruz, Correia Picanso, Restauração, Tamarineira, Barão de Lucena, Agamenon Magalhães, Otávio de Freitas e Getúlio Vargas. “O projeto funciona como uma receita médica eficaz, na qual a arte é o remédio prescrito”, diz Barreto Campello.

Os benefícios dos programas humanizantes serão pauta do Encontro Nacional de Educação e Prevenção das DSTs/ Aids e Droga, a ser realizado na capital paulista, em junho. A UPE está tentando conseguir patrocínio para viabilizar a ida de alguns pacientes-artistas para se apresentarem no evento.(J.M.)

Serviço
Hospital Oswaldo Cruz - F.413.1300
Nappe – F.423.7062

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Jornal do Commercio
Recife - 16.04.2000
Domingo