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JOELMIR BETTING

Insegurança irracional

Quando as bolsas sobem feito rojão de vara em quermesse paroquial, nove em cada dez analistas juram por todos os juros que se trata de mera jogatina a serviço da especulação. Quando as bolsas queimam as próprias e obscenas gorduras, dois em cada 20 analistas decretam de dedo em riste: É falta de confiança dos mercados nos fundamentos da economia.

Quando as ações montam o touro da alta continuada, a economia real nada ganha com isso. Mas, quando elas pegam o urso da baixa purgativa, a economia real entra em parafuso. A euforia de poucos entrega a bola murcha à aflição de todos. Ou seja: bolsa em alta nada melhora; bolsa em baixa tudo piora.

PÂNICO – Paul Krugman escreveu, ontem, no The New York Times (e aqui no Estado) Quando as ações estão subindo, chama-se isso de ‘investimento do momento’ (tipo bola da vez do capitalismo financeiro). Mas, quando elas estão caindo, chama-se isso de ‘pânico’ coletivo. E não apenas dos investidores chamuscados.

Pânico de governos, empresas, mercados, negócios, contratos, projetos, empregos, famílias, férias, coelhos de Páscoa...

Até quando o rabo das bolsas vai continuar abanando o cachorro da economia de quem produz, compra, vende, contrata, poupa, estuda, consome e emprega? Robert Shiller, de Yale, em seu livro Irrational Exuberance, lançado na semana passada pela Princeton University Press, bota a culpa na imprensa, of course. A multimídia, segundo ele, faz sensacionalismo na alta e catastrofismo na baixa. Com manchetes e chamadas do tipo: Estouro da bolha! Acabou o sonho! Mundo de joelhos! Salve-se quem puder! Desenhar cenários sinistros e elaborar previsões pessimistas é um exercício profissional duplamente garantido, já nos ensinava o professor Lawrence Klein, Prêmio Nobel de Economia de 1980: 1) se os cenários e as previsões se confirmam, os autores deles são chamados de gênios; 2) se as coisas não se concretizam, eles lavarão as mãos, justificando: É porque tomaram providências com base em nossas advertências.

LÓGICA DA BOLSA – Única certeza: a bolsa é do ramo da exuberância irracional e da insegurança igualmente irracional. Ou será que não? Na definição de Franco Modigliani, Prêmio Nobel de Economia de 1985, citado em nossa coluna de sexta-feira: A expectativa de (des)valorização provoca a (des)valorização que sanciona a expectativa. Em bolsa, isso é racional. Tradução: irracional é a própria lógica da bolsa.

Aderência

Para o Brasil, o problema está na aderência cada vez maior das bolsas brasileiras às bolsas americanas. Para o bem e para o mal.

Paranóia

Nada tem de racional deixar-se atrelar a um mercado de Wall Street que só age e reage em razão de duas notícias: uma boa, outra má. A boa notícia: a economia americana vai bem. A má notícia: a economia americana vai bem.

Bolha podre

Sim, começam a vazar os tumores da corrupção. Cada país tem (e fura) a bolha que merece.


Jornal do Commercio
Recife - 18.04.2000
Terça-feira