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A moça do chapéu por Fátima Quintas* As curvas do caminho, de um barro avermelhado e pedregoso, pareciam intermináveis. O sol forte, escaldante, derramava seus raios impiedosamente. A moça, de pele alvíssima, com um chapéu de palha rosa-vinho, descia do carro e descansava debaixo da sombra do cajueiro. A atmosfera, densa, dificultava a pequena aragem que ainda poderia amenizar o calor insurportável. O mês de março sempre fora assim. Espesso, acachapante, notificando altas temperaturas. Mas naquele dia, o mormaço indolente contribuía para aumentar o peso de uma visita há muito postergada. Há quanto tempo pensava em voltar à casa-grande do engenho de Aliança? Faltava-lhe coragem. É difícil retornar aos lugares da infância. O que restava das lembranças ali vivenciadas? As perguntas se sucediam, uma atrás da outra, e as respostas jamais atenderiam à volúpia das indagações. Tentaria escarafunchar o baú dos feitiços tão bem protegido pela memória? Queria pouco. Apenas ver o que lhe escapasse dos olhos de menina. O suor escorria pela testa, a blusa de seda finíssima colava-se às costas, o trancelim delicado se emaranhava num colo escorregadio, a moça ofegava, recobrando forças para prosseguir. Manteve-se quieta por alguns instantes. Não valia a pena atropelar os acontecimentos. Em passos de garça, andou até a cancela num ritmo quase de desistência. Parou. As traves, grossas e roliças, entrelaçadas em formas simétricas, demonstravam o desgate dos dias, sol e chuva, meses, anos... A madeira corroída, áspera a olho nu, crua de verniz ou pintura protetora, ainda albergava toques de austeridade. Os largos troncos resistiam, o xadrez das taliscas mais finas apodrecera. O portão jazia perro e empenado, como se há muito ninguém o ultrapassasse. A moça tímida iria avançar a linha demarcada do interdito. Ver de longe, todos viam; entrar, nem pensar. Quem se interessaria em devassar as ruínas de uma moradia desabitada? Ali, já refeita do primeiro choque, seguiu adiante. O rangido da cancela despertou um cachorro que dormia próximo a um carrinho de mão, enferrujado e imprestável. Não estava só, a moça do chapéu de palha rosa-vinho. Atalhando o caminho, o cachorro correu obstinado por entre o mato oportunista que crescia livremente no solo ressequido e pobre de vegetação. Com uma saia longa de tecido leve, a moça não o seguiu, optou por uma pequena vereda que denunciava antigas passagens em virtude da ausência de qualquer ramagem resistente. Era longo o trajeto. O chapéu de pouco valia, o sol castigava, o suor continuava a escorrer pela pele aveludada. A paisagem invocava um deserto com as suas miragens flutuantes, delírios provenientes do excesso de luminosidade, escassez de penumbra. Já em frente à pequena escada que levava ao alpendre, a moça não conteve o impulso e olhou pra trás. O carro estava longe, o cão desaparecera nos fundos de casa ... Não podia permitir que o medo a tomasse por completo. Ouvia-se o som de alguns pássaros, poucos. Àquela hora, as vozes se recolhiam para muito além do arcano engenho. Pensou em gritar a sua saudade, ninguém a ouviria. Saudade não se ouve, sente-se. Somente ela se reservava o direito de buscas íntimas. A vida vivida contém os minúsculos átomos da existência de cada um. E a moça enfrentava sua história, mas temia o imponderável. Subiu a escada, chegou ao alpendre, a face se contraiu. Não estava preparada para reencontrar os aposentos da casa. * Com o chapéu de palha rosa-vinho na mão, retornou. Fátima Quintas é escritora |
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