
PATRIMÔNIO
O templo
da memória de Pernambuco ainda resiste por Luiza Modesto

Quem passa pelo número
130 da Rua do Hospício, nem imagina o que está atrás
daquela arquitetura simples. No zunzunzum diário do
Centro, resultado do estilo de vida moderno,
provavelmente, poucos se dão conta daquele casarão
azul. E se, por acaso, notaram sua presença, não
imaginam o acervo grandioso que suas paredes guardam
dentro de uma certa ordem e apresentação. Ali, desde
1930, uma placa indica, apontando para dentro, que aquele
é o endereço do Instituto Arqueológico, Histórico e
Geográfico de Pernambuco. Sob os cuidados do historiador
José Antônio Gonsalves de Melo, presidente há 35 anos,
este instituto é guardião de uma série de peças que
fizeram parte de momentos preliminares da história de
Pernambuco e, conseqüentemente, do Brasil.
Sabendo disto, engana-se
quem imaginar que este pequeno (em dimensão) museu opere
de maneira satisfatória, já que abriga peças de valor
inquestionavelmente significativas da nossa trajetória,
desde os tempos de colônia. Instalado logo na entrada,
por exemplo, está o marco divisório das capitanias de
Pernambuco e Itamaracá confeccionado em uma pedra
portuguesa de cor clara, lembrando arrecife, chamada
lioz. Imponente e preciso, feito uma fórmula
matemática, ele tira qualquer dúvida do visitante a
respeito do tempo do sistema de capitanias hereditárias.
Na sua base, os sulcos na pedra indicam sem erro: 1535.
Outro item de igual valor é o mapa descrevendo a
estratégia militar utilizada pelos
holandeses quando da tomada de Olinda e da Vila de
Recife. Ele mostra onde a tripulação da Companhia das
Índias Ocidentais desembarcou em Pau Amarelo
, e o percurso a pé de lá até onde hoje está
localizado o Bairro do Recife.
Fundado por intelectuais
da região há 138 anos, no dia 28 de janeiro de 1862
com o intuito de preservar a identidade e cultura
locais , o instituto, apesar do total descaso dos
governos federal, estadual e municipal, continua
funcionando graças à determinação do senhor José
Antônio Golsalves de Melo. Apesar da avançada idade,
todas terças e quartas-feiras à tarde, ele abre,
impreterivelmente, as amplas portas do instituto às
14h30 e as cerra às 16h, como se fosse um templo. Nesta
abnegada prática, conta com a ajuda do senhor Severiano,
único funcionário há 6 anos.
A restrição dos dias e o
minúsculo quadro de empregados não são casuais. A
razão disto reside no fato de a entidade sobreviver
exclusivamente da contribuição mensal dos seus 50
sócios: R$ 35. Se partimos do pressuposto de que todos
são fiéis contribuidores, ainda assim, fica clara a
natureza franciscana da operação. A falta
de verbas atinge todos os setores do museu. A começar
pela não publicação, desde de 1996, da revista do
instituto. É com tristeza que o historiador e presidente
informa que o suplemento cultural não existe há tanto
tempo. O que poderia ser facilmente resolvido se o
Governo do Estado fizesse cumprir a disposição
constitucional que o obriga a publicar dois números da
revista, como informa o jornalista e professor da UFPE,
Mário Hélio.
A biblioteca, atualmente
fechada, é outro alvo da escassez de verbas. O que é
lamentável, pois em suas estantes encontra-se uma
extensa coleção de inventários judiciais e de
documentos da Câmara Municipal do Recife, além das atas
de reuniões do instituto, desde a sua criação. Esses
documentos foram devidamente classificados pela segunda
secretária do instituto, a bibliotecária Fernanda Ivo
Neves, que voluntariamente cedeu seus sábados para
organizar as pilhas de livros. É também aos sábados,
das 10h às 12h, que Reinaldo Carneiro Leão, um dos
membros da entidade, realiza gratuitamente o estudo da
árvore genealógica de quem por ventura aparecer por lá
e se interessar.
Independente do nível
educacional, o que não falta no instituto é assunto
para ser estudado ou pesquisado. O estudante de
pós-graduação em História da Universidade do Rio de
Janeiro (URJ) Luís Felipe, sabe disso. O instituto em si
é o elemento central de sua dissertação de mestrado
sobre Estado e Sociedade. Ciente da importância do
acervo acolhido ao longo dos anos pelo museu,
poucoimporta ao estudante o fato de ter que gravar (haja
fôlego) as inúmeras atas das reuniões dos membros
daquela casa, peças cruciais para a sua análise
histórica. Se fosse num país de primeiro mundo,
eu chegaria e pediria os microfilmes. Estudaria o
material em reprodutores de imagens, sem falar que seria
num ambiente refrigerado. Mas isto não me
incomoda, diz.
De suas leituras, fica-se
sabendo que aqueles que formaram o instituto eram
intelectuais conservadores e moderados. O ponto comum
entre eles, no entanto, era o desejo de manter a memória
pernambucana intacta, longe dos tentáculos dilapidadores
da corte, situada na época no Rio de Janeiro (que
ironia). Naquele tempo, a corte mandou uma
comitiva, liderada por Gonçalves Dias, buscar o que de
mais significativo, em termos de arte e objetos
históricos,para formar o acervo do Instituto Histórico
da Corte, no Rio. A idéia era centralizar, cortar
qualquer iniciativa descentralização em qualquer
província, lembra. Ele conta que o Instituto
Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco foi
uma das vítmas desta política descentralizadora, quando
seus membros tentaram decretar feriado no dia em que foi
deflagrada a Revolução de 1817.
---------------------------------------------
---------------- - -----