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MÚSICA
O tão esperado disco do Via Sat chega finalmente às lojas e agrada

por Schneider Carpeggiani

Se teve um disco que foi aguardado, antecipado e comentado nos últimos tempos na cena pernambucana, foi o da Via Sat, que chegou semana passada às lojas. A demora se deveu tanto pelas óbvias razões financeiras, comum a todas as bandas fora do esquemão das gravadoras, quanto pelo desejo de unir de uma forma homogênea as suas várias influências musicais. O que ainda bem não aconteceu. Pelo balaio do Via Sat passam funk, soul, hip hop, jungle, frevo, samba, tambores, rock. Um verdadeiro Pastoril eletrônico, como diz o título de uma das faixas, mas essa definição também não é das mais exemplares. Quando você pensa que a música é de determinado gênero, ela subitamente passa para outro, sem ‘explicar’ nada ao ouvinte, que, surpreso, tem como única tarefa começar a dançar e a cantar suas grudentas melodias. E a intenção do Via Sat é mesmo aliar o som pop a arranjos elaborados e cheios de peculiaridades.

Para se ter uma idéia melhor desse efeito que a música do Via Sat pode causar, é só lembrar o hit Lamumbai, que teve uma execução mediana nas rádios recifenses há alguns anos. Quando se sente que a faixa é uma adaptação pernambucana do jungle inglês, ela acaba se entregando ao nosso frevo. E as onomatopéias ‘na, ra, na, ra, na, na,na’ do refrão, poderiam muito bem ser entoadas, acompanhando uma orquestra, em uma ladeira qualquer de Olinda, em pleno Carnaval.

A primeira música de trabalho do CD, Girando em círculo, é outro bom exemplo. Começa como um sambinha normal, mas depois entram os metais e a sua levada acaba apresentando uma faceta funk. A mistura/confusão/fusão (o que quer possam chamar isso) continua na própria letra da canção, que fala de ciranda com groove, maracatu distorcido e do coco de Selma.

E por falar em letras, o universo do Via Sat é cheio de todo tipo de referência. Há menção às meninas de Peixinhos (que só pensam em dançar), guerrilheiros africanos, emboladores de rap, playboys, skinheads, Daruê Malungo e até a Gengis Khan. Se muitos falam em uma vida com ou sem razão, eles dizem: “vivo numa razão de vida” – em Go fast , última faixa cantada no CD, que antecipa o trip hop de Tripping in hop. Para o público não se perder no meio das referências, o seu encarte conta com um glossário com a devida explicação dos termos. Um deles, inclusive, salta logo aos olhos:Mauristadt, antigo e lendário bar lá do Bairro do Recife, que é um nome holandês dado ao Recife, que significa ‘cidade maurícia’.

Apesar da qualidade musical do primeiro disco do Via Sat, que está saindo pelo selo Morango Music, ele precisa de ajustes tanto na sua parte gráfica quanto um boa mixagem em um estúdio moderno. Mais ou menos o mesmo caso de Céu de Brigadeiro, de Stela Campos. A qualidade das músicas é boa, mas o resultado final deixa no ar uma impressão de CD demo. E lapidar ainda mais o trabalho é a intenção da banda, que vai tentar vender o trabalho para uma gravadora, para assim conseguir uma distribuição nacional. “Agora que o trabalho já está gravado e pronto, os custos serão menores para uma gravadora pagar”, afirmou Pácua, vocalista do Via Sat.

UM PREÇO DOS MELHORES – O primeiro CD do Via Sat chegou às lojas com um preço dos mais camaradas: R$ 14,00. Em uma entrevista feita ano passado, Pácua disse que uma das suas principais preocupações era que o disco fosse vendido por um preço que fosse acessível a todo mundo. “Quando dizem que a música daqui do Estado não vende nada é porque os preço dos CDs são altos. O discos de Otto e Devotos são vendidos por R$ 20, e nem todo mundo pode pagar isso. Mas você passa pelas Lojas Americanas, por exemplo, e encontra um de pagode por R$ 14 ou R$ 15, é lógico que o público sem grana vai comprar um CD desses artistas”, comentou, na época, o vocalista.

Além do preço mais barato dos discos, o Via Sat pretende começar a divulgar o trabalho fazendo shows pelos subúrbios do Recife. “É lá que está grande parte do nosso público”. Dia primeiro de abril, eles, junto com outras bandas, fazem show no Alto José do Pinho.

Pácua comentou ainda que já levou o CD para as rádios locais e que elas estão dispostas a tocar música pernambucana – ao contrário do que todo mundo fala. “A responsável pela Rádio Cidade me disse que as próprias bandas não mandam os CDs para as rádios. Acho que o mito de que música da cena não toca está maior do que realmente é”, completou.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.03.2000
Segunda-feira