
CINEMA
O Beijo da
Serpente é o cartaz da sessão de arte no São Luiz por Kleber Mendonça Filho
O Beijo da Serpente (The
Serpents Kiss, Inglaterra/França/Alemanha, 1997),
de Philippe Rousselot, é uma história sobre arte,
natureza, sabores e perfumes cujo eixo é o amor
ameaçado pela inveja. Com elementos tão fortes à
disposição, o filme sai prejudicado por personagens
murchos e, para conhecedores da obra de Peter Greenaway,
pode passar a sensação de cópia esmaecida e pouco
inspirada de um dos seus filmes mais interessantes, The
Draughtsmans Contract (1982), pois trata-se
praticamente da mesma história. O filme será exibido
apenas hoje, na Sessão de Arte do São Luiz.
Num condado inglês de um
passado distante, Thomas Smithers (Pete Postlewaite) é
um rico dono de terras que, guiado pela ostentação
social,contrata os serviços de um paisagista para
transformar um matagal da propriedade num dos mais belos
jardins do reino, obra que irá propagar admiração e
inveja pela Europa. O paisagista chama-se Meneer Chrome
(Ewan McGregor), um jovem holandês, aprendiz de um
grande nome desta arte: Larousse.
Smithers, homem
manipulável, insensível e preocupado com aparências é
estúpido demais para perceber a carência afetiva das
duas mulheres de sua vida: Juliana (Greta Scachi), sua
bela esposa, e Thea (Carmen Chaplin), sua filha. Juliana
é uma mulher nobre e entediada, infeliz por ter ficado
estéril após o nascimento de Thea. Esta, é sensível
ao ponto de sintonizar a freqüência da natureza e ser
considerada louca pelo pai. Responderá negativamente às
mudanças realizadas na área onde o novo jardim será
desenvolvido.
A presença de Meneer traz
desequilíbrio emocional às duas mulheres. É um homem
sensível, sensato e, para Thea, especialmente, chega a
vagar nu pela mata que ela tanto ama, confirmando
suspeitas de que McGregor é provavelmente o ator mais
nudista da sua geração. Ambas apaixonam-se por ele, que
projeta com afinco o belo jardim que lhe foi encomendado.
Nem tudo são flores, no
entanto, com a chegada de Fitzmaurice (Richard E Grant),
provável vilão da peça, os desdobramentos começam a
cheirar a estrume. Primo e ex-amante de Juliana,
conhecedor do passado nebuloso de Meneer, suas ações na
propriedade Smithers serão guiadas pela inveja e o
ciúme, além de uma predileção pelo tabaco.
Nos seus melhores
momentos, O Beijo da Serpente promete estar a caminho de
uma análise curiosa sobre a utilização da arte para
satisfazer o orgulho pessoal, seja ele artístico ou
meramente social. O vasto conhecimento de Meneer sobre a
utilização de cascalhos, flores, cores e perfumes nos
dá algum insight sobre a arte e ofício do paisagista.
É provável que, ao visitar um elaborado jardim de algum
palácio, o espectador lembre do filme e da paixão de
Meneer pelo que faz.
Curiosamente, o filme fica
na promessa. Seus personagens mantém o nível de
desenvolvimento do início ao longo de toda a duração.
Thea, impecavelmente vestida e fotografada como uma
ninfa-bruxa, é um objeto de desejo vazio. Fitzmaurice é
apenas cínico e mordaz, encontrando um fim mais adequado
a um desenho Disney, impressão que se estende ao filme
como um todo. Também subaproveitados são os criados,
que tudo observam e cujas mãos revelam-se essenciais
para o rumo tomado pela história.
O francês Philippe
Rousselot faz aqui seu primeiro filme, depois de uma
carreira vitoriosa como fotógrafo na França (O Urso) e
em Hollywood (Ligações Perigosas, Nada é Para Sempre,
pelo qual ganhou um Oscar). Dirige com precisão de
imagem, mas afrouxa a mão no elemento humano que habita
seu sofisticado e colorido jardim.
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