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DISCO
A diva dos que buscam consolo nas canções de amor perdido

por Schneider Carpeggiani

Como são preconceituosos com a nossa música os gays, ativistas feministas e todos os abandonados moderninhos do Brasil, que escolheram como hino do ‘levanta a poeira e dá a volta por cima’, depois de um grande chega para lá, o clássico disco I will survive (’eu vou sobreviver’ em bom português), quando nós temos Roberta Miranda. É só prestar atenção nas suas letras para perceber que ela é perita em descobrir que o cara não presta, mandá-lo embora e ficar com o orgulho intacto. Quer exemplos? Então, vamos lá: “Não toque em mim/ hoje eu descobri que você não é nada/ não podemos seguir juntos nessa estrada”, em De igual para igual; “Se o destino está traçado/ Pra vivermos lado a lado/ vá com Deus”, de Vá com Deus; “Vou confessar/ Renunciei você de tanto louco amor/ Mesmo morrendo/ Sufoquei a minha dor”, de São tantas coisas. Depois de tudo isso, Roberta é diva ou não é?

Mesmo com com tantas práticas e rasgadas crônicas de como superar as perdas amorosas, a própria cantora diz que não é tão fácil assim vencer a sensação de fracasso após o fim de um relacionamento. “É difícil. Eu nunca acabo nada, espero que tudo acabe naturalmente”, revelou em entrevista por telefone, para divulgar o seu mais recente CD, A Majestade, o Sabiá, gravado ao vivo, em novembro passado, em São Paulo.

Se você estiver pensando coisas do tipo “mais um disco ao vivo, cheio de regravações, todo mundo está fazendo isso hoje em dia”, nem chegue perto da diva com esse tipo de conversa, porque ela fica logo irritada e dispara logo toda sua ira. “Você diz que o CD está se aproveitando de uma onda, porque não sabe da sua história. As músicas foram escolhidas pelos fãs, via Internet, e é a gravação de um show que venho fazendo há dois anos por todo o Brasil”, bradou.

Da mesma forma como fica enfurecida quando alguém comenta que seu novo CD cheira a oportunismo, a cantora se arma toda ao escutar qualquer rumor de que a canção sertaneja esteja em baixa: “Não posso falar dos outros, mas minha carreira está bárbara no Norte e no Nordeste”. E no Sul e Sudeste, Roberta? “Está tudo lindo, maravilhoso”, comenta com poucas palavras e adjetivos certeiros.

No repertório de A Majestade, o Sabiá está tudo aquilo que os fãs da cantora querem ouvir, como Eu te amo, te amo, te amo, Tinha que acontecer e as já citadas Vá com Deus, São tantas coisas e De igual pra igual. De novidade mesmo, só as regravações Um dia de domingo (”gente, sou apaixonada por essa música”, diz o release do disco), Outra vez, composição de Isolda, famosa na voz de Roberto Carlos e que recente foi regravado no recente – e também ao vivo – CD de Maria Bethânia e Garçom, de Reginaldo Rossi (amigo íntimo da cantora).

O rei do brega pernambucano, inclusive, participa cantando Amanhã – Chitãozinho & Xororó e Rionegro & Solimões são os dois outros convidados. “O Reginaldo é muito amigo meu. A gente se liga, até de madrugada, para comemorar o sucesso do outro”, revelou. Ah, como o termo brega entrou na história, Roberta avisa que não se importa em carregar esse rótulo, pois o que lhe interessa é ser ‘verdadeira’.

A MARISA MONTE DO SERTÃO – Já é notório que a cantora Marisa Monte acaba na hora qualquer entrevista, se o repórter tiver a ousadia de fazer qualquer tipo de investida a respeito da sua vida pessoa. Da mesma forma, Roberta não gosta nem um pouco de comentar esse assunto. Diz que é uma mulher que respeita muito sua privacidade, que teve uma mãe rígida. “Querem me conhecer? É só escutar alguma das minhas músicas. Se acontecer alguma coisa forte na minha vida, todos vão acabar sabendo. Se o acontecimento for muito ruim, também”, afirmou, tão cheia de defesa como antes.

Agora chateada mesmo e com vontade de acabar a entrevista na hora ela ficou quando escutou a seguinte pergunta: “Você fica aborrecida quando a imprensa comenta que você é lésbica?”. A resposta veio logo depois, em forma de uma alfinetada: “Como assim? A imprensa nunca falou nada a esse respeito, você é a primeira pessoa a falar. Quem pode comentar coisas assim são os fãs. Não tenho controle se eu desperto desejos sexuais em homens ou mulheres. Um artista não tem sexo”, afirmou, talvez se esquecendo de uma reportagem, com gritante chamada de capa, da revista Sui Generis, voltada ao público GLS, em que ela negava qualquer tendência homossexual.

Para deixar as coisas um pouco mais brandas, voltamos a centrar a entrevista no lado musical, o que não resultou em muita coisa. Ela não gosta nem um pouco de rock e diz que ainda é forte o preconceito em relação às mulheres no meio sertanejo. A razão? “Não sei”. Para os fãs de Roberta, uma boa notícia: em breve ela vai estar fazendo um show em Recife, mostrando as formas que conseguiu depois de ter contratado os serviços de um personal trainer. “Todo artista tem de ser vaidoso e eu quero uma foto minha bem bonita na matéria”, disparou.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.03.2000
Segunda-feira