ESPECIAL GILBERTO FREYRE
Humano,
demasiado humano por Mário Hélio
Há pelo menos setenta
anos, Gilberto de Mello Freyre domina a cena cultural do
Recife. Desde que voltou dos estudos nos Estados Unidos,
em 1923, o seu nome é o alvo preferido das homenagens e
dos ataques intelectuais no Brasil. Dez anos depois, já
publicava a sua obra principal, Casa-Grande &
Senzala, que alcançou o status de clássico do
pensamento brasileiro. Hoje, ao completar cem anos do
nascimento, a sua presença é mais vigorosa do que
nunca. Diversos eventos estão programados para marcar a
data, neste ano Gilberto Freyre, oficializado
pelos governos estadual e federal.
No Recife, duas
fundações cuidam de sua glória. Uma, com o seu
próprio nome, criada no ano da sua morte, em 1987, e a
Joaquim Nabuco, projeto seu quando deputado federal,
tornado realidade há cinqüenta anos. Por todos os
méritos, Freyre reuniu os raros componentes de
extraordinária produção intelectual e idêntica
habilidade para a propaganda de si mesmo. Mas, pode-se
dizer que as festas do seu centenário estão aquém da
sua importância. Não propriamente mais louvores,
bajulações, exaltações baratas (homenagem é palavra
feudal). E sim um vigoroso apoio à Fundação que tem o
seu nome, patrimônio permanente da cultura brasileira.
Desde a juventude, o seu
prestígio nunca esteve abalado. Nem com as
contradições políticas. Na década de 40, os aliados
da direita que dominou o país atacavam-no. Depois de 64,
quando apoiou os militares,o seu nome passou a ser visto
com desdém pelos meios de esquerda. Agora, no final do
século, há uma ressurgência muito grande
em torno dele.
Estudiosos do Uruguai a
Portugal voltam-se para investigar as bases das suas
teorias. Novos gilbertólogos surgem no
Brasil, como Ricardo Benzaquem, Guilhermo Giucci, Mary
del Priore. E aliam-se a outros como Edson Nery da
Fonseca, o mais profundo e apaixonado dos seus
especialistas.
Que uma nova editora, como
a Topbooks, vá publicar pelo menos uma dezena de suas
obras dá a medida certa do interesse que assume para as
novas gerações. Parece haver já isenção bastante
para abordá-lo sem os ruídos das ideologias que vêm
atrapalhando a leitura de todo o conjunto de sua
produção, que, aliás, nem está organizada e publicada
na totalidade.
Também nos meios
acadêmicos há um novo reflorescimento de Gilberto
Freyre. A UniverCidade, do Rio de Janeiro, patrocina um
prêmio de 20 mil reais ao melhor ensaio sobre ele. A
Fundação Oriente, de Lisboa e Macau, também promove
concurso para homenageá-lo.
Tudo parece entrar em harmonia com o seu temperamento,
autodefinido como conciliador de contrários.
Sendo o principal inspirador do movimento regionalista e
um dos mais apegados à província, é também o mais
internacional dos sociólogos brasileiros. Mais do que o
próprio presidente da República Fernando Henrique
Cardoso, um dos poucos da escola sociológica paulista a
receber bem as suas idéias, embora não as considere
científicas.
Tão fascinado pelo
passado, à beira da nostalgia e do
conservadorismo,Gilberto Freyre foi igualmente quem
melhor pensou o futuro do país e do mundo, no Brasil.
Além do Apenas Moderno e Insurgências e Ressurgências
Atuais são livros antecipadores de várias coisas. Como
uma civilização do lazer, a disseminação
do islamismo, os movimentos ecológicos. Ele mesmo, que
atacara em Tobias Barreto a volúpia do
inédito (num artigo da década de vinte), tinha
quase obsessão por proclamá-las de si. Outra
necessidade era de enfatizar as influências que exercia
nas pessoas. Mas de modo tão simpático e sedutor, que
quem o olhasse de superfície nem enxergaria aquele tipo
de vaidade que se encontra só na superfície. A dele era
mais funda.
Ele sabia como
ninguém inaugurar uma intimidade. A frase de
Lúcio Cardoso serviria muito bem definir o contato
pessoal que com Gilberto Freyre se estalecesse. Logo
alongado na leitura de suas obras. Livros
gordos, imensos, parecendo intermináveis. Mas, gostosos.
Quem, porém, lê tanto assim? Gilberto Freyre deve ser
um dos autores menos verdadeiramente lidos no Brasil.
Tão avesso ao puro academicismo, e ligado ao povo,
ressuscita por meio da academia. O povo o ignora. De
certo modo, o Brasil que ele fez reconhecer-se ainda
está em processo de autodescobrimento,e só aos poucos
vai sabendo quem são os seus intérpretes.
Já é tempo, portanto,
das universidades locais redescobrirem Freyre. As do
Sudeste fizeram isso antes. De reconhecer que a
História, tão em voga, da vida privada, íntima,
cotidiana, ele a fez primeiro do que ninguém no Brasil.
Sem ser historiador. Sem querer sê-lo. Mas, muito antes
de a história da família brasileira ser o núcleo de
sua pesquisa mais ambiciosa, quis escrever a história do
menino no Brasil. Um Brasil envergonhado e enlutado da
própria meninice, como ele definiu, em passagens muito
oportunas.
O cineasta Nelson Pereira
dos Santos flagrou, como muitos outros, esse vínculo
direto entre a obra investigadora de Freyre e as
estranhas do país. Aproveitando a coincidência do seu
centenário e meio milênio do encontro dos portugueses
com o Brasil, chama a Freyre de o Cabral
moderno, epíteto que costumava agradar ao próprio
homenageado.
Não é essa a primeira
vez que é pensado um filme tomando como base o livro
Casa-Grande & Senzala. O projeto de Nelson Pereira
dos Santos, no entanto, o faz considerando o que se
convencionou chamar com o pobre nome de docudrama,
aqueles documentários que usam elementos ficcionais ou
de reconstituição.Será a primeira vez em que a
estrutura da obra guia o filme. O cineasta vai utilizar a
mesma divisão do livro, que conta a história do país
não a partir das datas, mas da contribuição cultural
de índios, brancos e negros. Para esse trabalho
hercúleo conta com a colaboração do escritor Edson
Nery da Fonseca, verdadeira alma do documentário, a ser
exibido em abril pela GNT.
Já se flagrou o que há
de plástico, pictórico no estilo literário de Gilberto
Freyre. Ele mesmo usava diversas metáforas visuais para
caracterizar o país e a sua própria forma de
reconstitui-lo. Não seria difícil encontrar analogias
com a técnica cinematográfica e fotográfica. Seja qual
for a abordagem, depara-se com uma obra orgânica e um
autor nela refletido. Humano, demasiado humano, para usar
a expressão de Nietzsche, a quem certa vez ele chamou de
meninão. Talvez o fosse também. Um menino
de cem anos, que lendo o que escreveu pensando no velho
Whitman, pudesse dizer: C amarada, isto não é um
livro. Quem toca nele toca um homem.
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