ESPECIAL GILBERTO FREYRE
III
O
modo português de estar no mundo Da nova geração de
historiadores portugueses, Cláudia Castelo, 30, é a que
melhor voltou-se para o estudo da obra de Gilberto
Freyre. No livro O Modo Português de Estar no Mundo, ela
revisita de forma crítica e erudita a teoria do
luso-tropicalismo. Atualmente, a autora, que profere
palestra, no final deste mês, na Fundação Joaquim
Nabuco, diz, na entrevista, o significado das teorias de
Freyre para os portugueses.
Jornal do
Commercio Quando se discute a tese do
lusotropicalismo, de Gilberto Freyre, costuma-se atacar a
possível apropriação política que teria sido feita
pelo governo Salazar, mas poucos a abordam no seu mérito
teórico. A senhora considera adequada a explicação que
dá o sociólogo pernambucano para as civilizações
nascidas nos trópicos, com características comuns?
Cláudia Castelo - A doutrina do
luso-tropicalismo (cujas raízes remontam a Casa-grande
& senzala, de 1933) teve os seguintes méritos:
introduzir na academia "o estudo sistemático de
todo um complexo de adaptações do português ao
trópico"; contrariar, com base em conhecimentos
científicos, a ideia largamente aceite nos anos 30, da
decadência irreversível dos trópicos; exaltar o
contributo africano, ameríndio e oriental para a
civilização luso-tropical; valorizar a mestiçagem e a
interpenetração de culturas; afirmar que os laços
afetivos e culturais que unem os portugueses e os
luso-descendentes uns aos outros não anulam as
diferenças regionais, fonte de criação e
originalidade. Embora construído no quadro histórico do
colonialismo, e tendo servido como argumento ao regime
português para legitimar a permanência de Portugal no
ultramar, o luso-tropicalismo assegurou a sua
'sobrevivência' ao impor-se num plano 'extra-colonial'.
Por outras palavras: de acordo com a teoria de Gilberto
Freyre, no mundo criado pelo português as afinidades de
sentimento e de cultura sobrepunham-se às questões de
soberania, portanto, a comunidade luso-tropical
continuaria a existir depois da independência das
colônias portuguesas.
JC O que é o modo português de
estar no mundo? Poderia citar exemplos que possam
configurar esta presença?
CC Segundo Gilberto Freyre, o modo
português de estar no mundo é um modo fraterno,
plástico, tolerante, cristão. O autor de O mundo que o
português criou vê na miscigenação de portugueses com
mulheres de "vária cor" e no amor do pai pelos
filhos mestiços um dos principais traços da presença
lusa nos trópicos. A facilidade de adaptação ao clima,
ao meio físico e aos costumes tropicais também é
realçada na obra de Freyre.
JC Pelo menos dez anos antes de
sistematizar a idéia de um lusotropicalismo, Gilberto
Freyre considerava a cultura lusobrasileira ameaçada. A
senhora compartilha dessa idéia? Consegue vislumbrar
hoje ameaças a essa cultura comum? Pode dar algum
exemplo concreto?
CC Gilberto Freyre profere a conferência
Uma cultura ameaçada: a luso-brasileira,em plena Segunda
Guerra Mundial, alertando sobretudo para determinados
perigos personificados pela imigração alemã radicada
no sul do Brasil. Naquele momento, empenha-se na defesa
do "tronco cultural da sociedade brasileira: o
tronco português", o qual foi sempre capaz de
"assimilar, sem violência, elementos
estranhos". Considera, por isso, que tudo o que for
hostil à formação luso-brasileira "é contrário
aos interesses essenciais do Brasil", que se quer
plural. Colocando-me na perspectiva de Gilberto Freyre, a
cultura luso-brasileira enfrenta a ameaça do racismo, do
nacionalismo exacerbado e do purismo linguístico.
JC A sra. está pesquisando na Fundação
Gilberto Freyre cartas de intelectuais portugueses com o
sociólogo. A censura e o governo salazarista são
assunto da correspondência?
CC A correspondência de portugueses com
Gilberto Freyre é numerosa e variada. A maioria das
cartas dá conta do percurso intelectual de Gilberto
Freyre em Portugal. A censura e o Governo de Salazar não
são temas recorrentes nas cartas dos portugueses a
Gilberto Freyre. Há, porém, algumas exceções,
nomeadamente nas cartas de João de Barros, em que este
explica porque é que não compareceu nas homenagens
prestadas a Gilberto Freyre durante a sua estadia em
Portugal (1951): o seu horror à censura e a violência
praticada pelo Governo de Salazar contra o seu filho,
Henrique de Barros; nas cartas de Maria Archer, quando
ela pede a Gilberto Freyre que lhe escreva por
intermédio da editora Livros do Brasil, pois a
"Mesa Censória postal" apossa-se da sua
correspondência "com tenacidade
impressionante"; numa carta de Marques Gastão, na
qual este se queixa de ter sido expulso do Gabinete de
Imprensa no aeroporto de Lisboa porque um artigo seu não
agradou ao Ministério das Comunicações.
JC O que pensa hoje a intelligentsia
portuguesa das obras de Freyre? Qual a sua opinião sobre
ele?
CC Em Portugal, ainda perdura no discurso
político e cultural uma representação do eu português
tributária das teses de Gilberto Freyre. Embora
raramente se faça referência explícita ao autor do
luso-tropicalismo, algumas das suas ideias continuam a
ser reproduzidas em Portugal, por intelectuais de
diferentes quadrantes ideológicos, sobretudo quando se
quer defender o papel do nosso país como interlocutor
privilegiado entre os hemisférios Norte e Sul. A obra de
Gilberto Freyre foi inovadora e tem evidentes qualidades
científicas e estéticas. As suas teses merecem ser
relidas, debatidas e criticadas. Julgo que a
discordância relativamente ao seu posicionamento
político (a admiração por Salazar e a aproximação à
ditadura militar brasileira) não deve obstar à
reflexão séria sobre o seu pensamento.
JC O lusotropicalismo se sustenta hoje,
passados treze anos da morte do escritor Gilberto Freyre?
CC Parece-me que o luso-tropicalismo
sobreviveu ao seu autor e enforma hoje o discurso de
aproximação e cooperação entre os povos lusófonos.
Considero que contribuiu decisivamente para a formação
da auto-imagem em que os portugueses melhor se revêem (a
que salienta a sua tolerância, humanismo e
plasticidade). Mais do que um discurso sobre a relação
entre Portugal e os trópicos, o luso-tropicalismo
constitui, de fato, no imaginário nacional, a
experiência de Portugal no mundo.(P.S.S.)
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