ESPECIAL GILBERTO FREYRE IV
A
construção do Brasil plural Até o final deste ano, a
bibliografia de Gilberto Freyre vai ser enriquecida com
diversas edições. Só a Topbooks programa cinco
títulos. A Nova Aguilar edita, em três volumes,
Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Ordem e
Progresso. O mesmo faz a Record, com lay-out novo. A
editora Tecnoprint lança uma nova edição da seminovela
Dona Sinhá e o seu filho padre. A Massangana põe nas
livrarias Quem Somos Nós, uma obra coletiva reunindo as
conferências dos 60 anos de Sobrados e Mucambos. O
Jornal do Commercio antecipa trechos de dois desses
textos ainda inéditos: da apresentação do crítico
Eduardo Portella para as obras da Aguilar, na coleção
Intérpretes do Brasil, e do dicionário Gilberto Freyre,
de A a Z, de Edson Nery da Fonseca.
por Eduardo Portella
Os projetos de
compreensão do Brasil foram basicamente setoriais.
Refletiam a tentação do viés, a exacerbação
ufanista, as armadilhas do preconceito e, por detrás de
todos esses malefícios, a fragilidade ou a carência de
apoios críticos. Um ou outro olhar mais sagaz conseguia
furar o bloqueio. Uma ou outra intuição menos
preguiçosa, alcançava atravessar o nevoeiro de um
pré-entendimento cercado de obstáculos por todos os
lados.
É nesse quadro mais ou
menos impreciso que aparece e se afirma o desempenho
histórico-hermenêutico de Gilberto Freyre. Não por
acaso o autor sofreu, ao longo da vida, dois obstinados
tipos de rejeição. O primeiro, de fundo
epistemológico, preferiu impugnar a sua cientificidade.
O segundo, de nítida feição ideológica, dedicou-se a
estigmatizar o que seria o seu conservadorismo.
No primeiro caso, os
argumentos da maldição partiam da separação
contundente de ciências exatas e ciências humanas, até
chegar ao confinamento do saber monodisciplinar. A pecha
de "escritor literário", que Freyre recolheu
gratificadamente, teve papel relevante nesse desacordo
indolente.
No segundo caso, o veto
ideológico, simplificado na leitura voltada para as
relações de produção no autor de Casa Grande &
Senzala, agravou-se, como era de se esperar, a partir de
64. Teria sido mais corrosivo, não fossem as privações
teóricas do marxismo mecânico. E, em maior proporção,
a inanição crítica do poder dominante.
É provável que essa
breve reconstituição não passe de um exercício
memorialístico perfeitamente dispensável. O debate
intelectual transformou-se substancialmente. E
transformou-se, em grande parte, graças a essa prática
teórica, que foi deixando de lado as denegações
peremptórias, os maniqueísmos reincidentes, a vontade
exterminadora da racionalidade hegemônica. O desempenho
subversivo de Gilberto Freyre, essa sorte de razão
impura que o animou, aponta nessa direção, imune ou
refratário ao absolutismo da ratio ultima.
Se por um lado a razão
impura, que certa vez surpreendi no autor de Nordeste,
nos ameaça com o desconcerto e a dispersão, por outro,
nos protege do autoritarismo do conhecimento imperial.
Herdamos das nossas
metrópoles, ou das nossas matrizes conceituais, a
ambição da pureza identitária. A idéia de pureza,
diga-se de passagem, se alastrou por todo o corpo da
construção nacional, penalizando ou ferindo, em alguns
momentos gravemente, possibilidades de encontros, ao que
tudo indica, promissores.
Foi sob essa base tutelar,
consciente ou inconscientemente, que passamos a defender
a marca sedimentada, a percepção rígida, que atendiam
pelo nome nome superiormente nomeado de
identidade. E assim a identidade nacional passou a ser um
lugar estabelecido, insensível à diversidade, carente
de energias emancipatórias.
No seu registro
excludente, ela evitava e proscrevia tudo o que pudesse
advir do mundo imprevisível da diferença, da ousadia do
outro. Parecia dispor de um dispositivo de segurança
inabalável. Sem se aperceber que a vida da identidade,
ou a identidade da vida, da história, da nação, do
grupo, do indivíduo, se alimenta e vive dos seus outros,
de suas diferenças. A obra de Gilberto Freyre,
confluente e plural, desmontou o sistema de segurança da
identidade singular.
Trecho do texto de
abertura do livro Introdução à História da Sociedade
Patriarcal no Brasil, da coleção Intérpretes do Brasil
a ser lançada neste mês pela Nova Aguilar
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