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O templo de quem faz fumaça

por Leonardo Spinelli

Quem já gastou um pouco de tempo para entender a atração que o fumo exerce sobre as pessoas descobre, geralmente, que a explicação está na sensação de liberdade de se entregar a um prazer atualmente quase proibido. A sociedade está cada vez mais repressora com relação ao tabagismo e a sua prática já não é mais associada à beleza, como provou Rita Hayworth, ou à sabedoria, segundo Albert Camus e Winston Churchill.

Esses são personagens do século 20, de áreas distintas (cinema, literatura, política), mas de uma época em que o fumo era sinal de requinte. Hoje, o cigarro foi jogado num limbo e seus apreciadores arrastados pelo mesmo vácuo, sendo tachados de inconvenientes, perdendo cada vez mais espaços nas áreas públicas, ‘privatizadas’ pelos não- fumantes. No entanto, o charuto e o cachimbo ainda conseguem manter aquela aura de requinte, charme e poder.

Até mesmo nas tabacarias, reduto de todos os tabagistas, há esta ‘discriminação’. Enquanto os charutos e cachimbos aparecem imponentes na vitrine, com aquela aparência clássica, os cigarros ficam ali no cantinho, atrás da caixa registradora. Proibidos até mesmo de serem falados pelos donos das lojas, já que os mais sofisticados, como os doces tailandeses e os fortes franceses chegam ao Brasil pelas brechas da fiscalização, pois a taxação sobre a importação destes produtos é enorme. “Se trouxéssemos pelo caminho normal, uma carteira de cigarro importada não sairia por menos de R$ 10”, informa um lojista. Como não tem graça falar dos ‘Free’ da vida, deixemos os cigarros onde devem ficar: no canto.

Seus primos mais ricos têm história para ser apreciada e, apesar de não terem um público tão grande, são os que mais dão lucro aos donos de tabacaria, apesar de todas se tornarem casas de presentes finos. “As tabacarias têm de ter um ‘mix’ variado, pois só o charuto e cigarro não sustentam uma loja. Por isso temos nas prateleiras canetas, bebidas e brinquedos sofisticados”, argumenta Flávio Luna, proprietário da Mr. Holmes.

Aliás, a loja de Luna é uma das beneficiadas pelo perfil exigente dos degustadores (é assim que se chamam os apreciadores de charutos e cachimbos, pois eles sentem o sabor na boca, não tragam). Como qualquer consumidor, a tradição é a que mais pesa na hora de o cliente escolher uma casa. E isto a Mr. Holmes tem de sobra. “São 55 anos de funcionamento. Meu pai começou na Praça da Independência. Há seis anos mudamos de endereço e registramos o novo nome”, relembra, referindo-se à antiga Tabacaria da Pracinha. Como é a mais tradicional, ela sempre é a mais lembrada e tem maior variedade de produtos.

Quem não dispõe de tradição, apela para os amigos e os amigos dos amigos. Este é o caso da Porto Havana, instalada no Hiper Bompreço de Boa Viagem. Com apenas três anos de funcionamento, a tabacaria oferece, além de uma boa variedade de charutos e fumos, um espaço reservado para o ‘aficionado’. No mezanino da loja funciona uma sala de degustação, onde os amantes do charuto se encontram para conversar, ao sabor de uísque, vinho ou licor. A idéia deu tão certo que a cada dia a Porto Havana atrai novos fumantes.

“Comecei a fumar há um ano, depois que comecei a freqüentar a loja”, revela o executivo Paulo Athayde, hoje, um habitué das tardes tabagistas do mezanino. Nas paredes, fotos de vips e políticos que ou já passaram pelo local ou ali estão apenas pelo prestígio. Nessas fotos, eles sempre aparecem com um bom charuto na mão. “É uma espécie de confraria do charuto”, diz Athayde.

Existem outros pontos na cidade, como a Casas Lopes. Esta diversificou tanto que, além de fumos, oferece revistas e serviços de turismo aéreo. Todos eles prezam pela aparência mesclando o rústico ao sofisticado, geralmente ambientadas com madeiras em tons avermelhados. Mas só isto não é o bastante para se vender um bom produto.

Muito mais importante do que a própria aparência é a forma como são vendidos. O fumo, principalmente do charuto, necessita de alguns cuidados de armazenamento, pois qualquer descuido pode transformar um belo cubano no mais chinfrim dos charutos. Por isso é bom tomar cuidado com as tabacarias mais populares. Nestas não há condições boas de armazenamento. Todos os charutos devem estar úmidos, pois se ressecados perdem seu sabor. Portanto, as lojas devem ter umidificadores de ar, para neutralizar o ressecamento provocado pelo ar-condicionado. Numa linguagem mais técnica, a umidade relativa do ar deve estar em 70%.

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Jornal do Commercio
Recife - 17.03.2000
Sexta-feira