
ENTREVISTA/ Mauro Fernandes
Fizeram
um complô contra mim e entreguei o cargo No dia 10 de janeiro, quando se
apresentou ao Clube Náutico Capibaribe, o técnico Mauro
Fernandes tinha um objetivo claro pela frente: acabar com
o jejum de títulos, que dura dez tortuosos anos. Além
disto, pretendia também calar a boca daqueles críticos
que não o consideram capaz de comandar times do Sul do
País, principalmente após o fracasso com o Botafogo, no
ano passado. As esperanças de Mauro Fernandes, de
alcançar seus objetivos, nos Aflitos, começaram a ruir
no instante em ele que percebeu que não era uma
unanimidade dentro do clube. Ao contrário. Até mesmo a
torcida parecia ter um só intuito nos estádios:
vaiá-lo. Pensou em ir embora algumas vezes, desistiu
sempre, mas a gota dágua aconteceu quando seu time
foi derrotado pelo Porto por 2x1, na quarta-feira, dia
15. Desta vez, o técnico não agüentou: entregou o
cargo no dia seguinte. Apesar de tudo, Mauro não está
magoado, mesmo reconhecendo que fizeram um verdadeiro
complô contra ele. Em sua residência, em Boa
Viagem, o ex-técnico do Náutico recebeu o repórter do
Jornal do Commercio, Paulo Augusto, e contou outros
detalhes sobre sua saída.
JORNAL DO
COMMERCIO Afinal, o que aconteceu para que você
pedisse demissão tão repentinamente, mesmo com o time
perdendo apenas um jogo?
MAURO FERNANDES Eu não estava agradando
ali dentro. Determinados dirigentes ficavam com raiva de
mim porque eu não conversava com eles, mas tinha cara
que dizia que era diretor e eu nem sabia disto.
JC Fizeram alguma campanha contra você?
Mauro Houve um complô contra mim. A
torcida só ia a campo com o intuito de vaiar o
treinador. Desde o meu primeiro dia, já tinha gente me
vaiando e não deixavam o time jogar, e isto inibe o
jogador. Eu não conseguia agradar em nada. Até da minha
roupa reclamavam! Então pensei: Se estou
incomodando, é melhor sair, e foi o que aconteceu.
JC Você deixa o Náutico magoado com as
pessoas?
Mauro De jeito nenhum. O Náutico tem um
grande presidente, que é o Fred Oliveira e um excelente
gerente de futebol, que é o Édson Nogueira. Mas é um
clube dividido. Tem várias facções, como a Confraria
Timbu de Ouro e a Fanáutico, que exercem influência e
dificultam as coisas. O ruim não é o jogo em si, é o
dia-a-dia sofrendo com estas pressões.
JC Por que você acha que a torcida pegava
tanto no seu pé?
Mauro A torcida está angustiada com o
tempo que o clube não é campeão e a cada time montado,
aparece um sonho que se torna um pesadelo. Ela não quer
que o Náutico perca para ninguém. Tem que ser os
Globe-trotters jogando no gramado.
JC Títulos não faltaram para você em
todos os clubes do Nordeste, em que passou. Esta é sua
terceira passagem pelo Náutico e, novamente, sai sem
vencer nada. Isso deixa lhe deixa frustrado?
Mauro Não, porque eu não tinha
condições ideais de trabalho. Para montar o time foi um
sacrifício grande, pois o Náutico não tinha dinheiro
para pagar o empréstimo de ninguém com um bom nível
técnico. Se eu tivesse tido uma boa estrutura, estaria
frustrado, mas nestas condições, não.
JC Quando chegou ao Náutico, você sabia
de todos estes problemas que o clube enfrentava e sabia
que todos os jogadores tinham contrato de apenas seis
meses. Por que aceitou, então?
Mauro Porque eu também só ficaria no
Náutico durante o Estadual. Meu contrato também era de
apenas seis meses, tempo suficiente para ser campeão
pernambucano.
JC Mesmo com tudo isto, você acha que dá
para o Náutico ser campeão?
Mauro Dá, mas o time precisa de tempo.
Ninguém tem varinha mágica! O Sport tem uma grande
estrutura, o Santa Cruz já tem uma base, mesmo assim o
Náutico está indo muito longe.
JC Você acha que o próximo técnico
sofrerá as mesmas pressões?
Mauro Bem, o próximo treinador terá uma
vantagem que eu não tinha: os jogadores já estão
trabalhando há dois meses. Quando peguei o elenco, tinha
muita gente que não entrava em campo há quatro meses e
isto dificulta muito. Já deixei uma base para quem
assumir.
JC Qual o futuro de Mauro Fernandes?
Mauro Vou ficar em Recife até a próxima
semana, mas depois volto para Belo Horizonte. Mas não
quero passar mais de dez dias sem trabalhar. Espero
voltar a dirigir alguma equipe o mais rápido possível.
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