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PERNAMBUCO Recife e Olinda por Gilberto Freyre por Mário Hélio "Não sei se, em qualquer tempo ou espaço, já houve uma relação mais íntima entre um homem e uma cidade, como esta, entre Gilberto Freyre e o Recife. Relação que, nada tendo de nativismo literário ou de sentimentalismo de "filho extremoso", se afirma num amor continuado e viril, já estabelecendo uma espécie de interdependência para que ambos, o homem e a cidade, funcionem na plenitude. "A afirmativa é do poeta Mauro Mota, e sintetiza a relação de Gilberto Freyre com o Recife. Com Pernambuco, pode-se dizer de modo extensivo, ou o Nordeste, de forma ainda mais ampla, para quem entender o Nordeste ainda mais Brasil que o Brasil. Mais adequado seria, no entanto, dizer que a sua mente de pensador interessou-se por tudo o que é humano, fosse no seu país, ou em outros domínios tropicais, ou em países europeus como Portugal e Espanha (ele que se sentia tanto espanhol a ponto de fazer questão do y no sobrenome, costume herdado do avô, para acentuar origens). O pensador estava com todo o mundo. Mas o poeta e o artista estavam nas cidades pernambucanas. Especialmente, o Recife e Olinda. Intimamente, um bairro, Apipucos. Foi no Recife que quis viver sempre. Recusando convites para fixar-se em São Paulo, no Rio ou nos Estados Unidos. Como Manuel Bandeira, ele fazia questão do seu provincianismo. Por isso, em 1933, no mesmo ano em que escreveu a sua obra mais importante Casa-Grande & Senzala produziu um guia turístico, que sairia no ano seguinte, numa edição de luxo, ilustrado por seu amigo Luis Jardim. COM PERSONALIDADE O Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife. A obra vai ser reeditada ainda neste ano pela Topbooks, do Rio de Janeiro. O que é essa obra sui generis, o primeiro guia de uma cidade brasileira a ser produzido por um escritor? É o que o título indica, didaticamente. Um guia turístico, puro e simples, de onde se pode saber desde onde ficam as principais igrejas da cidade, até onde tomar um carro de aluguel. Mas também traz informações históricas e antropológicas, que sem elas todo o guia turístico é simples catálogo de endereços e telefones. A parte sentimental diz da poesia e da declaração de amor à cidade. A linguagem é saborosa, como a de todos os livros do escritor. Claro que a parte histórica suplanta a turística simplesmente turística. O sentido sentimental está em todas as entrelinhas. Há o mesmo gosto pelo pitoresco que o autor vai revelar em suas obras mais extensas. Daí divertir-se em comentar sobre um chamado Beco da Luxúria. "As ruas do Recife variam muito de fisionomia, de cor, de cheiro. Parecem às vezes de cidades diferentes." Ruas para diversos gostos: européias, como a Avenida Rio Branco, orientais como a Estreita do Rosário (à noite), portuguesas, como a Larga do Rosário,ou até senegalescas. "Demorando no Recife, o turista não deixe de ir a Olinda", sugere Gilberto Freyre. "É a mãe do Recife. Podendo vá também a Iguarassu, que é a avó." |
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