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PERNAMBUCO III Com um recato quase mourisco O caráter da cidade: O viajante que chega ao Recife por mar, ou de trem, não é recebido por uma cidade escancarada à sua admiração, à espera dos primeiros olhos gulosos de pitoresco ou de cor. Nenhum porto de mar do Brasil se oferece menos ao turista. Quem vem do Rio ou da Bahia, cidades francas, cenográficas, fotogênicas, um ar sempre de dia de festa, as igrejas mais gordas que as nossas, casas trepadas umas por cima das outras com grupos de gente se espremendo para sair num retrato de revista, uma hospitalidade fácil, derramada talvez fique a princípio desapontado com o Recife. Com o recato quase mourisco do Recife, cidade acanhada, escondendo-se por trás dos coqueiros; e angulosa, as igrejas magras, os sobrados estreitos. Cidade sem saliências nem relevos que dêem na vista, toda ela num plano só, achatando-se por entre as touças de bananeiras, que saem dos quintais dos sobrados burgueses; por entre as mangueiras, os sapotizeiros, as jaqueiras das casas mais afastadas. Outra impressão, bem mais alegre, é a do viajante que chega de avião e a quem o Recife se oferece um pouco mais. Só as grandes manchas dágua verde e azul dão para alegrar a vista. A nenhum, porém, a cidade se entrega imediatamente. Seu melhor encanto consiste mesmo em deixar-se conquistar aos poucos. É uma cidade que prefere namorados sentimentais a admiradores imediatos. De muito oferecido e saliente, ela só tem o farol. Trecho do livro Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife, de Gilberto Freyre |
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