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ARTIGO

O siliclone

por Gustavo Krause*

Zé-Faz-Tudo era um gênio. Tinha uma oficina vizinha ao consultório de meu pai na Rua XV de Novembro, em Vitória de Santo Antão. Sua imaginação criadora e perícia manufatureira produziam do mais simples ao mais sofisticado artefato. Basta dizer que nos idos dos anos 50, fabricou uma sanfona “scandalli”, por encomenda do velho que, na mais absoluta falta de numerário, realizou um sonho de consumo de minha mãe – uma aplicada aprendiz do instrumento – com mercadoria barata, de boa qualidade, só que “made in Vitória”. Sem desconfiar, minha mãe, animadíssima, tocou tanto uma valsinha chamada “Sobre as Ondas” que eu e Romeu aprendemos a nadar.

Recentemente, deparei-me com um tipo “Zé-Faz-Tudo”. E num ramo que é o “must” de medicina, um doutor em cirurgia plástica a quem recorri por motivos que, só ao final, revelarei.

Falante e “fashion”, como exige o figurino, o ilustre esculápio, mal balbuciei o convencional “Quais são as novas?”, deitou falação. Era o primeiro a dar as últimas dos avanços técnico-científicos da especialidade, bem como propagar e oferecer suas originalíssimas criações ao respeitável público.

Seu variado cardápio de cruento embelezamento começa com uma opção denominada “de tudo um pouco”. Trata-se de uma recauchutagem geral observada uma tabela de quilômetros rodeados. Toma por base a associação do princípio da economia de escala com a síndrome da “bela adormecida” o que, no fundo, significa aproveitar ao máximo o efeito da anestesia para remover pé-de-galinha, papo-de-pau e pelancas em geral. O efeito-múmia dos primeiros dias é compensado, mais adiante, pela cara lisa de “tamborim de coro de gato”. No negócio, aceitam-se pré-datados a perder de vista (sendo que a última prestação pode ser a entrada da próxima cirurgia), consórcios e carros usados, desde que importados.

Falou-me, com entusiasmo das técnicas “mamãe eu quero mamar” e “bumbum de ouro”. Na primeira opção, a inspiração vem das frutas (seios-manga, coco, laranja e os mais procurados, atualmente, segundo as informações, melancia e, pasmem, jerimum. Na segunda, os moldes seguem-se as fases da lua (bumbum quarto crescente, quarto minguante, lua nova e lua cheia, com expressiva preferência para os tipo étnicos Afro-Brasileiros Zulu e Hotentote).

Seu entusiasmo cresceu quando falou da famosa lipoaspiração. Duas variedades nasceram do seu poder de criação: “a lipoexpiração” ou “pimba na gorduchinha” que, ao invés de tirar, bota gordurinha onde só tem pele e osso. “Tem mercado?” ataquei com rapidez e meio incrédulo. “E como tem”, respondeu com um ar de soberba e arrematou, como quem busca cumplicidade ao repartir um segredo “o mais novo fetiche é um pouquinho de celulite. É cada vez maior o número de lipófagos (devoradores de gordinhas)”; a outra variedade é a lipotransposição que retira células do glúteo para o cérebro. As coelhinhas que serviram de cobaias têm dado sinal de progresso. Já não comem mais cenouras.

A emoção chegou ao clímax, quando o nosso discípulo de Hipócrates falou-me de revolucionário projeto Siliclone ou Mulher Maravilha do século XXII. Depois de anos e anos de pesquisas, estudos e experiências, ele conseguiu combinar os códigos genéticos do genoma humano com o genoma do silicone e, depois de concluir o primeiro protótipo – contou-me entre lágrimas – teve impulso idêntico ao de Michelângelo quando terminou Moisés: tocou-lhe com o bisturi e ordenou “fala”! O Siliclone deu um estrondoso arroto. Frustrado, mas não vencido, informou-me que o segundo protótipo estará pronto para desfilar no Morumbi Fashion do próximo ano.

“Mas, amigo Gustavo, em que posso lhe ser útil?” cortou bruscamente o doutor o relato de sua proezas diante de um assustado cliente”. “Bem, doutor”, pigarreei me ajeitando na cadeira, “como o senhor sabe, depois de uma certa idade, as coisas não são como antes e eu estou precisando de um implante...” com um olhar maroto e um risinho de quem já ouvira aquela conversa muitas vezes, interrompeu-me e foi logo dizendo “Seu Krause tenho um material”. Antes que ele avançasse atalhei, “É de cabelo doutor”. Ele não se fez de rogado:” Tenho uma técnica novíssima. Tiro cabelo do sovaco que é mais jovem, mais resistente, implanto na calva e os resultados são excelentes. Agora, só que no lugar de shampoo, você vai usar desodorante no cabelo para o resto da vida. Topa?”

* Gustavo Krause, consultor de empresas, foi Ministro da Fazenda e do Meio Ambiente


Jornal do Commercio
Recife - 20.07.2000
Quinta-feira

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