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SANGALETTI
O GUERREIRO NO OSTRACISMO

por Wladmir Paulino

Ostracismo talvez seja uma palavra muito forte, porém, não há outra melhor para definir a situação pela qual o zagueiro Sangaletti atravessa, no Sport. Afastado do time pelo técnico Émerson Leão, após o primeiro jogo contra o América Mineiro, pela Copa dos Campeões, o jogador sumiu das vistas de todos os que freqüentam a Ilha do Retiro. Ninguém pode vê-lo e seus treinos ocorrem nos horários em que ninguém está no clube, seja do futebol profissional seja do amador.

A solidão do atleta é tão grande que segunda-feira ele foi obrigado a treinar na hora do almoço, entre 12h e 14h. Ontem e anteontem, o jogador também não pôde fazer exercícios junto com os não-relacionados para o jogo de ontem com o São Paulo, em Maceió.

Agora, vamos ao motivo: uma entrevista concedida por Sangaletti depois da última rodada do terceiro turno do Campeonato Pernambucano, quando os reservas do Sport venceram os do Santa Cruz por 3x0.

O problema parece ter sido estritamente pessoal, pois no dia em que Sangaletti foi comunicado que não fazia mais parte do elenco, Leão teceu-lhe até elogios, segundo o próprio zagueiro. “Ele disse que eu tinha qualidades para jogar em qualquer time do mundo e que eu sempre cumpri as determinações. Fiquei até feliz em ouvir aquilo”, admitiu.

Porém, o marco inicial da história é um pouco mais distante. Foi aos 10 minutos do jogo Sport x Santa Cruz, pela última rodada do terceiro turno. Naquele momento, o zagueiro rubro-negro levou um soco do centroavante Róbson. Revidou e tomou cartão amarelo. “No intervalo, pensei que seria substituído para ele me poupar para a final, já que corria o risco de ser expulso”, contou. A alteração não foi procedida nem o jogador pediu para sair.

Nas entrevistas ainda no campo, Sangaletti foi indagado sobre o risco que correra e ainda respondeu se a agressão sofrida fora premeditada para tirá-lo da decisão. Limitou-se a responder que estava com medo de ir para o chuveiro mais cedo, mas manteve a mesma disposição. “Se ficasse com medo e abrisse numa jogada mais perigosa iam dizer que não tinha condições de disputar a final”.

No dia seguinte, Leão o chamou para uma conversa em particular e o jogador reiterou o que dissera na entrevista. No dia 21 de junho, data da final, Sangaletti estava relacionado para o banco de reservas. Como aconteceria com qualquer um, ficou chateado em não jogar, mas afirma que nunca forçou a barra para ser titular. “Quem manda é o técnico. Falei com Márcio, disse a ele: ‘Vai lá e arrebenta’”, lembra.

Conquistado o pentacampeonato, Leão pediu para que o jogador fosse negociado. Como nada foi concretizado, Sangaletti permaneceu no grupo para a Copa do Nordeste. Substituiu o companheiro Sandro Blum na derrota para o América/MG (2x1), mas o técnico deu um ultimato à diretoria leonina: “Ou ele ou eu”. Foi ele.

SEM RESSENTIMENTO – Mesmo longe das vistas de qualquer companheiro e treinando em horários esdrúxulos, Sangaletti garante que não guarda nenhuma mágoa do técnico Émerson Leão e até o elogia. O zagueiro tem plena consciência de que nunca cometeu qualquer ato de insubordinação nem exigiu presença entre os onze titulares na decisão do Campeonato Pernambucano. “Não há cláusula no meu contrato dizendo que tenho que ser titular”.

Quanto a Leão, Sangaletti continua a achar um ótimo treinador e trabalharia normalmente com ele, em qualquer lugar. À torcida ele pede, fique no Sport ou não, que guarde os bons momentos e os quatro títulos – três estaduais e da Copa Nordeste, conquistada com um gol seu.

TEMPERAMENTO – Qualquer chance de uma reviravolta e possível retorno do ídolo leonino é nula. Basta lembrar as brigas de Émerson Leão em outros clubes. No Atlético/MG, a vítima foi o goleiro Taffarel. Ano passado, no Internacional/RS foi a vez do capitão do tetra, Dunga, sentir a ira do treinador.

Curioso é que foi o próprio Dunga que salvou a pele de Leão ao marcar o gol que impediu o rebaixamento do time gaúcho. Mera coincidência ou não, os dois jogadores citados acima e Sangaletti eram líderes no respectivo elenco.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.07.2000
Quinta-feira