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COMPORTAMENTO
Por trás da timidez

por Julliana de Melo

No meio de uma festa muito animada, de um shopping lotado ou de uma sala de aula barulhenta lá está ele. Parece se esconder por trás dos óculos e evita ao máximo falar com os outros, passando sempre a impressão de que está deslocado. Para completar o quadro, quando abordado, sua frio, fica vermelho e gagueja, principalmente, se a outra pessoa for do sexo oposto. Igual a esse sujeito, existem milhares de tímidos e não é difícil encontrá-los.

A maioria das pessoas conhece alguém assim, que não se sente à vontade em encontros sociais. Estima-se que 50% da população mundial experimentam o que chamamos popularmente de timidez. Na psicologia, o tímido é denominado de inseguro, inibido, retraído. Um indivíduo com muitos medos, geralmente, adquiridos na infância, durante os primeiros anos de vida.

A psicóloga Maria de Fátima Alencar diz que um dos fatores principais que faz a pessoa ser tímida é ela ter sido criada num ambiente com clima afetivo e emocional inibidor. “No relacionamento da criança com o adulto, de alguma forma ela capitou uma hostilidade, se sentiu ameaçada de ser abandonada ou de não ser plenamente amada”, explica.

De acordo com Maria de Fátima, por a criança não ter condições físicas e psíquicas de enfrentar e vencer o ‘perigo’, o bloqueio se instala como forma de proteção. “Apesar de não compreender o que está acontecendo, o bebê sente e registra as emoções no inconsciente, repercutindo na vida adulta.”. O mecanismo da timidez acontece toda vez que a pessoa se depara com uma situação incômoda. “Ela sente-se ameaçada, revivendo o clima de infância e o bloqueio da sua espontaneidade”.

Alguns especialistas também acreditam que a timidez pode ser genética, mas, em ambos os casos, a família e o meio em que vive têm um papel estrutural na vida da pessoa. “Mesmo com a personalidade pré-disposta para ser tímido, o ambiente familiar pode minimizar ou reforçar esse fator natural”, ressalta. Sendo assim, o processo pode começar na infância, mas passa a se fortalecer de pequenos insucessos durante toda a vida.

Da teoria à prática, a inibição vem causando sofrimento em muita gente, que não consegue ter um bom desempenho na profissão ou na vida afetiva. Com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, ganha quem é mais comunicativo e ágil, pronto para sair de qualquer situação adversa. No campo social, também é preciso ser habilidoso para conquistar amigos e iniciar um relacionamento amoroso. Não é para menos que, muitas vezes, o tímido chega a se sentir um verdadeiro ‘peixe fora d’água’.

“A inadequação é muito grande. A sociedade exige de todos um comportamento padrão, sem dar chances aos calados, mas competentes tímidos”, desabafa João Pedro Barros, 42 anos, atualmente desempregado. Ele conta que por diversas vezes foi procurar emprego, perdendo a vaga quase sempre para o candidato mais falante. “Tenho consciência que meu potêncial era, algumas vezes, maior do que os dos outros, mas a vergonha de expor meus pensamentos e de mostrar minhas habilidades impede meu sucesso”, explica.

BLOQUEIO – Para engrenar o relacionamento que mantém há cinco anos, João também teve muitas dificuldades. “Passei quase um ano criando coragem para dizer um simples ‘oi’ e depois mais um tempo para me sentir à vontade ao ponto de propor o romance”, diz.

Segundo a psicóloga, o tímido tem sempre o sentimento de que nada vai dar certo. É um pessimista em potencial. “Ele tem um nível de exigência muito grande em satisfazer as expectativas que ele acha que os outros têm dele”, diz. Nesse contexto, a auto-estima fica bastante prejudicada, fazendo com que a pessoa se sinta pouco atraente fisicamente e desinteressante como pessoa.

A psicóloga acredita que uma das fases mais problemáticas é a adolescência, época na qual todos os papéis sociais estão em efervescência e que, normalmente, a timidez fica mais acentuada. Para a estudante Ana Maria Silva (nome fictício),17, foi difícil vencer a inibição até para dar esta entrevista. “É algo mais forte do que eu. Sei que às vezes até exagero, mas não consigo controlar os impulsos”, comenta ruborizada.
Por vergonha, Ana Maria não tinha coragem de tirar as dúvidas com os professores, resultando em um boletim vermelho no final do semestre. A timidez da garota foi colocada em pauta na reunião de pais da escola, na qual foi sugerido um acompanhamento psicológico.

Apesar de ser um recurso bastante procurado, nem sempre a psicoterapia é necessária. Vale lembrar que a timidez pode se apresentar em diversos graus de intensidade. Em alguns casos, a inibição é situacional, aparecendo apenas diante de ocasiões específicas. É comum encontrar, por exemplo, pessoas que conseguem se expressar com segurança no trabalho e não conseguem envolver-se numa paquera.

A timidez, no entanto, também pode ser crônica. A pessoa apresenta inibição diante de toda e qualquer situação social, tais como festas, reuniões, relacionamento com colegas e contato com o sexo oposto, somente para citar algumas. “Neste caso, o tratamento psicológico pode fornecer ao indivíduo as ferramentas necessárias para seu desenvolvimento pessoal, dando condições de desbloquear seus traumas e resgatar a espontaneidade”, frisa a psicóloga.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.07.2000
Domingo