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ESQUERDA
O ocaso dos sandinistas

por Julia Ríos
Agência France Press

MANÁGUA – No dia 19 de julho de 1979, com os braços erguidos, fuzis nas mãos e longas barbas, os guerrilheiros da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) fizeram sua entrada triunfal em Manágua, dois dias depois que o ditador Anastasio Somoza tinha fugido, deixando a esperança de uma revolução democrática na América Latina.

Acossado pelo avanço guerrilheiro em todo o país e as pressões dos Estados Unidos e da Organização de Estados Americanos (OEA), Somoza fugiu para os EUA e depois para o Paraguai, enquanto “los muchachos” tomavam as cidades.

A América Latina, mas principalmente todos os nicaragüenses, celebraram a queda de uma dinastia que governou o país por 45 anos. Pela primeira vez em muitas décadas haveria democracia, e foi instalada uma Junta de Governo de Reconstrução Nacional, que representava a unidade dos nicaragüenses.

Mas meses depois os sandinistas decidiram instaurar um regime socialista, extasiados pelo regime de Fidel Castro. No dia 20 de julho a Junta de Governo entra em Manágua, onde milhares de pessoas a esperava em júbilo, acreditando num futuro democrático e no fim da pobreza.

Entre a multidão de guerrilheiros, se confundiam centenas de “internacionalistas” vindos de toda a América e Europa, que lutaram e sonharam com uma revolução autêntica.

Na Junta estavam os guerrilheiros Daniel Ortega – que governava de fato – , e Moisés Hassan, o intelectual sandinista Sergio Ramírez, o empresário Alfonso Robelo e Violeta Barrios, viúva do jornalista Pedro Joaquín Chamorro, cujo assassinato em 1978 precipitou a vitória revolucionária.

OCASO – Mas, pouco depois da vitória revolucionária, o verdadeiro poder da Nicarágua, a Direção Nacional da FSLN – que Ortega liderava –, decide-se por uma tendência socialista. Barrios e Robelo renunciam à Junta. Em julho de 1981, o legendário “Comandante Zero” e vice-ministro do Interior, Edén Pastora Gómez, deixa seu cargo e vai para a Costa Rica.

Ali começaria a ser gestada a contra-revolução. O grupo mais forte se instala em Honduras, com o patrocínio dos Estados Unidos, e Pastora na Costa Rica.

De acordo com o ex-embaixador sandinista em Washington e ex-ministro da Educação, Carlos Tunnerman, a revolução começou a se frustrar a partir do momento em que a direção da FSLN “se afastou dos princípios originais, quando tentou imitar um modelo socialista como o de Cuba e países do leste europeu”.

Ortega, que venceu as eleições de 1984 – convocadas por pressão da comunidade internacional –, teve que se conformar com a derrota nas eleições de fevereiro de 1990 frente a Violeta Barrios de Chamorro.

“A vitória da revolução em 1979 criaria uma atmosfera irreal, na qual entrávamos encantados com a surpresa e a incontida ansiedade pelo futuro. Desta forma, a derrota de 1990 criou uma atmosfera igualmente irreal. Antes, não queríamos acreditar que tínhamos vencido, com medo de despertar. Agora, não queríamos acreditar que tínhamos perdido, e queríamos acordar”, escreveu Ramírez em 1999.

O projeto nicaragüense, que “despertou grande expectativa e solidariedade” nos povos da América, “deixou como experiência que as mudanças devem ser feitas no contexto da democracia, e não tentar impô-las de cima para baixo, com uma ditadura de partidos”, disse Tunnerman.

“Hoje a revolução está para muitos, dentro e fora da Nicarágua, entre as lembranças da vida passada, as velhas recordações, que são lembradas assim como são lembrados os amores perdidos; mas já não é mais a razão de vida (...). A revolução não touxe a justiça tão sonhada, nem pode criar riqueza e desenvolvimento”, disse Ramirez.

Hoje os sandinistas, que tentarão voltar ao Governo em 2001 prometendo não cometer “os erros do passado”, são acusados por diversos setores de terem forjado em 1998 um pacto com o “somozista” Arnoldo Alemán – como eles o chamam –, para criar um sistema bipartidário que se alterne no poder.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.07.2000
Quinta-feira