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JOELMIR BETTING

Sustos & custos

A geada e a seca, de mãos dadas, juntam-se com o repasse frívolo da alta dos combustíveis para aumentar de um terço a inflação de julho, com sobras para agosto. Esse repique climático/tarifário da carestia nos terminais do varejo sugere uma mudança tática na política dos preços ainda administrados (ou mal administrados). Ou se muda o tarifaço anual de julho para janeiro ou se troca o inverno pelo verão no calendário de São Pedro.

Transferir o frio tropical para o curso do Natal até que seria legal.

A gente ficaria atrelada também ao inverno da Nasdaq e ainda teria um Natal branco coberto de neve. Com baita criatório de renas nas campinas de Mato Grosso. Rápido no gatilho, o governador Dante de Oliveira importaria matrizes e zootecnistas escandinavos e anunciaria incentivos fiscais para fábricas de trenós nos arredores de Cuiabá, Alta Floresta, Barra do Garças e Barra do Bugre.

Mas já que mudar o cronograma da indexação dos preços públicos esbarra na lei animal do menor esforço da estatocracia planaltina e já que fazer a manipulação transgênica do clima levanta questões têxteis e ambientais de monta que tal uma terceira via?

Seguinte: pegue-se o bonde da adoção das metas inflacionárias (inflation targeting) e da apuração do núcleo da inflação (core inflation) e promova-se o expurgo dos índices, deletando deles os efeitos do diesel, da seca e da geada. As tais de acidentalidades, meramente transitórias na formação de custos e preços.

Os americanos acabam de reabilitar o core inflation sem grilo. Eles anunciaram, terça-feira, que a inflação de junho foi de 0,6% com petróleo e de 0,2% sem petróleo. O segundo índice, o expurgado, é o que conta para a mexida ou não dos juros do Fed.

Com ou sem manipulação dos índices, o problema insolúvel ainda é o da especulação dos preços. Por ignorância de 30% e por ganância de 70%, um choque de oferta desferido pela onda de frio polar nas frutas, verduras e legumes do cinturão verde de São Paulo vai bem mais longe e bem mais fundo do que imagina nossa inocente econometria.

No tomate, perda física de 60% na região de Campinas motivou remarcação de 140% no varejo da cidade.

E o que dizer do repasse frívolo da alta do diesel? Se o combustível sobe 15%, o frete é reajustado em 15% ou mais. Se o frete é reajustado em 15%, a mercadoria sobe 15% ou mais. De nada adianta o IBGE, a Fipe, a FGV e o Dieese demonstrarem nos jornais que nem só de diesel vive o cálculo do frete e nem só de frete vive o custo da mercadoria transportada.

Substituição
A bola quadrada do jogo bruto da inflação do pretexto está nos pés do consumidor. A ordem do Felipão é substituir produtos chocados por opções de mercado no cardápio do dia.

Reequilíbrio
Nos países tangidos pela cultura da estabilidade monetária, choques de oferta ou trancos de acidentalidades são neutralizados por movimentos de substituição e/ou protelação. Não há repasse que sobreviva a um encalhe.

Cafeinados
No café velho de guerra, o impacto é duplo: o da geada brasileira e o da bolsa americana. A cotação da segunda costuma exagerar o estrago da primeira. Até porque, o preço lá fora estava abaixo do custo aqui dentro. O duro é substituir o carro próprio pelo transporte coletivo em choques de oferta da Opep. Somos terráqueos energívoros de quatro rodas. Até por falta de transporte coletivo digno do nome.


Jornal do Commercio
Recife - 20.07.2000
Quinta-feira