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PERSONAGEM A MULHER QUE ENSINA A COMER MAÇÃ por Schneider Carpeggiani Qualquer pessoa que já tenha viajado, mesmo que apenas para passar um final de semana em uma praia não muito distante, tem de concordar com um fato: há um certo conhecimento da realidade (do mundo e da gente mesmo) que só é possível descobrir longe de casa. E quem parece saber e aproveitar muito bem dessa constatação é a jornalista Katia Zero, o maior fenômeno editorial do Brasil no segmento guias turísticos. Seus dois primeiros livros Guia New York e Guia New York Estilo e Compras alcançaram a incrível marca de 350 mil exemplares vendidos. Provavelmente, o grande segredo do sucesso de suas obras resida no fato de ela não se prender ao simples onde? e quanto?, que povoam os outros títulos presentes no mercado. Vai bem mais além. Conta histórias, busca referências, curiosidades. Muitas vezes, Katia prefere passar linhas e linhas relatando as roupas de quem freqüenta determinado restaurante do que simplesmente informar ao leitor como chegar nele ou quanto lhe custará a aventura gastronômica. Em seu novo livro, Manhattan Sensual (De acordo com o dicionário Britannica World Language, essa expressão em inglês, além de sexo, fala também daquilo que pertence ao corpo e aos órgãos do sentido. Exs: comida, perfumes etc), ela ratifica ainda mais o seu estilo. O trabalho é uma compilação das suas principais crônicas, publicadas nos últimos dois anos para o jornal Estado de S. Paulo. Todas elas devidamente atualizadas. Por que insistir em livros? Porque só acredito neles, se questiona e responde a autora no prefácio. Katia Zero foi morar em Nova Iorque em 77, quando foi estudar dança. Uma boa educação sempre foi prioridade de meus pais. Era a coisa mais importante lá em casa. Visão deles, sorte, nossa, declarou a autora em entrevista por e-mail ao JC. Como todo mundo que mora fora acaba sendo uma espécie de assessoria de informação gratuita para os que ficam, começaram a surgir os pedidos de dicas do tipo para onde ir para se divertir, o que comer e onde comprar. Mesmo que todas as informações necessárias para os viajantes já tenham sido devidamente publicadas em seus livros, Katia afirma que até hoje em dia não se incomoda de dar dicas aos amigos. E até para amigos dos amigos e estranhos. Não, para mim isso nunca foi problema ou trabalho. É mais uma diversão-paixão. Viver como uma visitante na sua própria cidade, descobrindo sempre algo novo, diferente, acho, também, um luxo. Por isso, é que me proponho a escrever os guias, completou. Por ser a cidade onde vive há mais de 20 anos, é óbvio que ela tenha se especializado em escrever sobre o lugar onde já se sinta de casa, mesmo fazendo questão de ressaltar que seu coração é verde e amarelo, sim senhor. Apesar da facilidade que o bom conhecimento das redondezas lhe proporciona, a autora pensa em realizar guias sobre outras duas cidades que ela adora, Florença e Amsterdã. Mas ainda hoje, Katia é do tipo que acha Nova Iorque o centro do mundo. Provas? Ela as tem na ponta da língua: As duas linguagens novas do século 20, jazz e marketing, nasceram ou tomaram corpo aqui. Kátia ressalta, ainda, que tudo o que acontece de novo no mundo começa mesmo é em Nova Iorque: É a cidade que pauta as outras. Desde da mídia (todos os jornais se pautam no New York Times, Wall Street Journal e revistas daqui) até os restaurantes e modismos. Fincou aqui, vira moda internacional. MAIS MORDIDAS A leitura de Manhattan Sensual é indicada até por aqueles que não podem/planejam viajar para a big apple nos próximos anos. Katia Zero faz um bom levantamento de tendências, propostas e novidades que, com as devidas adaptações, podem ser utilizadas em qualquer grande centro urbano do planeta. Nova Iorque, Londres ou mesmo São Paulo a nossa megalópole da esquina. Todo livro tem a sua própria voz. E, às vezes, a voz é o que basta. Os meus têm dois elementos que considero chaves. Além de enredo, humor, historinhas. Eu vou pessoalmente a todos os endereços que indico, sempre que possível, anonimamente, e pago do meu bolso, tudo o que indico. Visto a pele do leitor, declara a autora. Aqui estão presentes informações que podem interessar a qualquer tipo de viajante. Como, por exemplo, fazer uma depilação com as irmãs J. Sisters, uma família de brasileiras que recebe em seu salão celebridades como Cindy Crawford, Naomi Campbell, Liv Tyler, Sandra Bullock e a nossa Tiazinha que rapou tudo por lá para a sua segunda sessão de fotos da Playboy. Há um capítulo dedicado até mesmo a entregar as chaves para quem quer decifrar os segredos de onde comprar lençóis nos Estados Unidos. Quase sempre, as coisas mais simples e mundanas são as que todo mundo quer saber. Por exemplo: comprar lençóis nos EUA, escreveu. Logo depois, ela explica como se espalhar no Soho. Um bairro notório, em todo mundo, por saber ser espontâneo e reciclável e que sofre com o peso da própria fama, que aumentou o aluguel e espalhou as superlojas. Para quem gosta de moda, um dos melhores momentos é o capítulo Nova Cara do Comércio. Nele há poucas informações de onde ou o que comprar. Ele fala basicamente de como as lojas de departamentos deram lugar às butiques de luxo, que carregam as etiquetas de Valentino, Armani e Calvin Klein. Em vez de repassarem seus produtos para terceiros, as marcas criaram as suas próprias lojas. Pelo que a autora comenta, se você não pode comprar nada - ou muito pouco em uma delas, a visita é mais do que necessária. É uma verdadeira aula de história. Talvez o mais divertido de todos os textos do livro seja sobre aquele bicho feíssimo, de visual pré-histórico, do tipo que não inspira amigos ou poesia, também chamado de caviar ou caviaaaarrrrr, como diz o título. Todos os detalhes de como comprar e descobrir o preço mais justo estão presentes na maneira mais guia turística que Katia consegue ser. Tanta precisão ao falar dessa iguaria deve residir em um comentário que a autora faz sobre seu trabalho no prefácio do livro. Muita gente chama o que eu faço frango-orgânico-no-le-cirque, sabonete, charuto, caviar, de luxo. Eu chamo de civilização. Por isso insisto. E escreve isso com a segurança de quem sabe que a vida é, também, feita desses detalhes.
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