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ARTIGO

Literatura e Caminha

por Marcos Vinícios Vilaça

Toda vez que chego ao Porto, vem-me à mente Agustina Bessa-Luís, dizendo dali:
“Há naquela velhice de bairros crizados e lôbregos... uma paixão e um selo de resistência... uma alma de muralha”.

Ou então, olho nas suas ruas da Chã e do Loureiro, na Miragaia, e vejo as ruas da Aurora, do Alecrim, do Bom Jesus, no meu Recife. E recordo as especulações no plano da arquitetura e da sociologia, que animaram Ernesto Veiga, Fernando Galhano, Josué de Castro, Aderbal Jurema, Gilberto Freyre, José Luís da Mota Menezes, Viana de Lima, Marco Aurélio de Alcântara a uma boa confrontação entre as casas esguias do Porto e os sobrados magros do Recife. Confronto do Recife, “águia sangrenta leão”, com aquela terra que Miguel Torga falou ser citânia lusitana, murada pela altivez de cavadores.

Na igreja do Mosteiro de São Bento da Vitória há, em alto relevo, a alegoria de monges, a descer pelo Douro, chegando ao Brasil. Cá, ainda se encontram – e para sempre – a serviço da fé, da cultura e da comunhão dos homens.
São, num caso e no outro, enlaces estéticos e de crença.

Pois bem, dia desses, fizemos o caminho de volta. Cada um dos participantes levou com o rio da sua aldeia, ao seu modo e nos seus limites, a determinação de rezar e trabalhar no Congresso Brasil-Portugal Ano 2000, a que tenho a honra de presidir.

Tive prazer em estar ali. Esse Congresso é, como o mar do poema de Valéry, sempre uma emoção renovada. Abri os seus trabalhos, como dizem os caboclos do meu chão nordestino-brasileiro, começando pelo começo. Fala-se muito na Carta de Pero Vaz de Caminha como nossa certidão de nascimento, feita no cartório improvisado das naus e sob a jurisdição de Dom Manuel I. Mas a Carta de Pero Vaz de Caminha é o nosso batismo literário. Pela primeira vez as cores tropicais do Brasil e sua gente são descritas. Recordando esse documento inaugural, não apenas comemoramos 500 anos do encontro da civilização portuguesa como os nativos e a terra do Brasil, mas comemoramos 500 anos de literatura brasileira.

Não alimento a controvérsia se a literatura brasileira principia com Gregório de Matos, com os nossos árcades ou com o nosso romantismo?

Essa é uma discussão acadêmica que fica para outra hora.

O que não se pode negar é que a Carta registra e narra completamente a saga de navegadores chegando ao Novo Mundo. E de forma deliciosa, brejeira, até com a graça do toque tropical.

Caminha tem os olhos de um prosador que quer ver um paraíso, espécie de admirável mundo novo, nas terras achadas. Ali está, não apenas como tabelião do Novo Mundo, também como cronista literário do sêmem dessa civilização morena quem irá se construir.

Somos herdeiros não apenas da língua que usamos como intercurso social e idioma oficial do país. Somos herdeiros, junto com a língua, das tradições, usos e costumes, da civilização portuguesa e, bem compreendemos, uma certa voluptas dolendi de sua criação literária. Logo, legatários da rica tradição da literatura portuguesa. Ninguém herda apenas uma língua. Junto, vem toda a cultura de um povo. Chega toda a literatura dessa gente sensível, de quem Sophia de Mello Brayner falou assim: “Os que avançam de frente para o mar/ e nele enterram como uma aguda faca/ A proa negra dos seus barcos/ Vivem de pouco pão e de luar”.

Irmanado na língua e na cultura, o Brasil conseguiu, é claro, criar sua independência política, cultural e literária. Mas, mesmo que as expressões literárias de hoje entre Brasil e Portugal mostrem diferenças no trato da mesma língua, como poliglotas em português, esculpimos, na talha do tempo, a perenidade das criações estilísticas feitas com o mesmo instrumento: nosso idioma comum. Já ensimou Agustina Bessa-Lu-ís que “só as lágrimas e o riso não têm sotaque”.

Alexandre de Melo, notável crítico de arte, defendeu em situação assemelhada, que essa postura é bem distinta daqueles antolhos do que chamou localismo, a posição absurda de quem ignora as inconveniências do isolacionismo. Somos hoje uma comunidade respeitável, com produções literárias em todos os países de língua portuguesa. A presença nas galas litúrgicas do Nobel mostra a vitalidade dessa literatura.

O futuro nos reserva mais espaço nestes tempos de globalização vertiginosa. Se os livros fizeram o Iluminismo e a Enciclopédia, uma Revolução, o que nos aguarda nas próximas décadas?

Marcos Vinicius Vilaça é das Academias Brasileira e de Lisboa


Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo

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