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GENEALOGIA
BUARQUE, UMA FAMÍLIA DO TAMANHO DO BRASIL

por Flávia de Gusmão

É tudo família. É tudo boa gente. E não é mera força de expressão. Que o diga o economista e pesquisador Bartolomeu Buarque de Holanda, alagoano radicado no Rio de Janeiro que, de passagem pelo Recife, nunca esquece de trazer debaixo do braço o calhamaço de quase 700 páginas, que consumiu mais de 20 anos de sua vida. Em dezembro, prazo final, deverá estar deixando o ninho deste pai zeloso, que em sua meticulosidade desembaraçou uma das mais intrincadas árvores genealógicas do País, o livro Buarque, Uma Família Brasileira, pela Editora Revan.

Ao puxar o primeiro fio da meada, no final da década de 70, numa conversa informal com parentes sobre a ‘quase morte’ por afogamento do seu tetravô, José Inácio Buarque de Holanda, o autor se meteu num labirinto de entrecuzamentos familiares que apenas confirmava o que já havia sido pontuado pelo sociólogo Gilberto Freyre: “Os casamentos consangüíneos foram comuns no Brasil não só por motivos econômicos fáceis de compreender um regime de economia particular, como sociais, de exclusivismo aristocrático”.

Ao lembrar o acidente que quase vitimou seu antepassado, Bartolomeu raciocinou que, se o desfecho tivesse sido fatal, o Brasil não conheceria as frase perfeitas de um Chico Buarque, não consultaria as páginas de um Aurélio, não conheceria a História pelas mãos de um Sérgio. Isso para falar apenas em um dos núcleos desta família expansionista.

A família Buarque, de quem trata o livro, misturou-se a quase todas as famílias, num raio de ação que começa em Maragogi, Alagoas, finca raízes em Porto Calvo, no mesmo Estado e daí se espraia para todo o País. Holanda, Pinto Guimarães, Macedo, Borja, Nazareth, Lima, Cavalcanti, Schiller, Benchimol, Santa Maria, Barbosa Quental, Planet, Burlamaqui, Palmeira Lampreia e Gusmão são alguns dos sobrenome que se combinaram aos Buarque.

NÚMEROS – Os números que surgem no livro de Bartolomeu Buarque dão bem a medida do fôlego exigido para concluir a pesquisa que desvendaria a origem e propagação de sua família. Aproximadamente 10 mil integrantes do clã desfilam pelas páginas desde o semi-afogado José Inácio Buarque, no século 18. Apenas em Alagoas, 4.630 pessoas dividem o mesmo sobrenome.

O rigor da pesquisa se baseia em 15 mil documentos rebuscados nos cartórios da região Sul de Pernambuco e Norte de Alagoas. Tudo servia como fonte: livros de notas, testamentos, inventários, escrituras de compra e venda, cartas de liberdade e livros paroquiais de vários municípios, alagoanos e pernambucanos. Não satisfeito, o pesquisador foi a Portugal onde cascavilhou os arquivos da Torre do Tombo, Ultramarino, Universidade de Coimbra, bibliotecas da Ajuda, do Porto e da Universidade de Lisboa.

Bartolomeu faz questão de enfatizar que o seu trabalho não é um “culto à vaidade” ou uma “exaltação familiar”, mas pretende ser um instrumento de busca para um maior conhecimento sócio-cultural.

Ao narrar a construção da família Buarque de forma romanceada, “mas sem alterar a veracidade dos fatos em nome da prosa”, o autor nos apresenta figuras anônimas que, em seus atos cotidianos, falam muito dos costumes da época. Uma de suas personagens, a matriarca Maria José Gusmão Lima, por exemplo, escandalizou a sociedade da época. Escrava índia até os três anos, ela estremeceu a cidade de Barreiros, em Pernambuco, ao casar com José Inácio Buarque. Com a invalidez do marido, em 1817, foi a primeira mulher a assumir a administração de um engenho, o Sampa, em Porto Calvo.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo