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LITERATURA
Histórias recheadas da cozinha sertaneja de Dona Rachel

por Schneider Carpeggiani

“Chegam os amigos de visita pelo sertão e nos seus olhos leio o espanto, e, quando não o espanto, pelo menos a estranheza: que é que nos prenderá nesta secura e nesta rusticidade? (...) Tudo tão pobre. Tudo tão longe do conforto e da civilização, da boa cidade com as suas pompas e as suas obras. Aqui a gente tem apenas o mínimo, e até esse mínimo é chorado (...) Por que tanto amor por estas terras ásperas? Não sei. Mistério é assim: está aí e ninguém sabe. Talvez a gente se sinta mais pura, mais nua, mais lavada. E depois a gente sonha. Naquele cabeço limpo vou plantar uma árvore enorme. Naquelas duas ombreiras a cavaleiro da grota dá para fazer um açudinho. No pé da parede caberão uns coqueiros e no choro da revência, quem sabe, há de ter umas melancias. Terei melancias em novembro. Quem tem melancia em qualquer mês e não sabe de onde elas vêm compreenderá acaso este milagre – melancias em novembro?”

Dessa forma, Rachel de Queiroz fala do sertão (usando sempre o ‘s’ minúsculo) no último capítulo do seu livro de receitas, O Não Me Deixes, em homenagem a sua fazenda. Livro esse meio estranho, diga-se de passagem. Não há fotos de pratos, algumas receitas vêm mais detalhadas a partir de dados sobre sua história do que de seus ingredientes em si e muito menos há preocupação em mostrar novidades. Estão lá as velhas canjica, a pamonha, o doce de caju e outros de nome estranho, com ingredientes simples e preparo artesanal, como a ‘espécie de castanha de caju’.

Mais do que um simples manual de receitas, em O Não Me Deixes, Rachel fez uma declaração de amor ao sertão. Uma região onde o prazer, sabor e sobrevivência estão presentes e só podem ser descobertos na escassez. Com a rasgada beleza como a autora descreve os seus pratos, sem qualquer grande elaboração gastronômica, é possível sentir um certo constrangimento diante do sem-fim de supérfluos que a gente carrega. “Fico muito assustada quando falo assim, enfaticamente, na ‘cozinha do Não Me Deixes’”. Porque não é nenhum repertório ilustre de pratos especialíssimos, ‘divinos’, ‘maravilhosos’. No Não Me Deixes, como em todo o sertão nordestino, a cozinha é sóbria e magra”, escreve, em um certo tom de desculpa.

Rachel de Queiroz escreve sobre comida de uma maneira bem próxima a que Gilberto Freyre fazia: como uma conversa simples, gostosa, ágil, como são aquelas que acontecem ao pé do fogão, enquanto os pratos estão sendo preparados.

De um lado, ela conta as peculiaridades da culinária nordestina, que tem como ancestrais a portuguesa e a indígena. “Aqui, diante dessa magra culinária indígena, as abundâncias portuguesas fizeram escola moderada. E só fomos conhecer uma cozinha imaginosa e rica, usando com capricho o material existente na terra, após a vinda dos negros, com a sua gorda e variada culinária”, relata.

De outro, bem mais saboroso, Rachel conta os bastidores e as curiosidades da cozinha de O Não Me Deixes. Tem biografias rápidas de gente como Nise, a mulher que comandava a cozinha da fazenda, que tinha uma total maestria sobre tudo que fosse de forno e fogão, desde toda espécie salgados até doces e bolos que aprendia nos livros de cozinha da mãe da escritora. Mulata escura, não parava de dizer que não tolerava pretos nem pobres. Uma contradição que, de forma semelhante, não é difícil encontrar por aí, tanto no sertão quanto na cidade.

Há vários relatos do susto ou imenso prazer que as crianças tinham com determinadas receitas, como a ‘carne sepultada’, que só o nome já assustava. Há o dia, em meio a um períodos de mais seca no sertão, em que um homem esfomeado, encontra e mata uma cabra e vai vender o couro logo para o seu dono. E as imensas descobertas que as crianças de centros urbanos realizam quando se deparam com a vida no interior.

Em relação a receitas e suas peculiaridades, há muitos livros bem mais eficazes que O Não Me Deixes e a autora faz questão de ressaltar bem isso no seu texto. Só que ela sabe que na hora de relatar as histórias do sertão, seu talento é imbatível.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo