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MÚSICA
Aumenta a força da nova latinidade

por José Teles

A badalação em torno da velha guarda cubana, celebrada no filme Buena Vista Social club, não foi muito além do hype incensado pela mídia. A música cubana, o maior produto de exportação da ilha, nunca esteve tão em baixa no maior mercado de discos do mundo, o americano, onde, por décadas, exerceu uma influência que se estendeu do jazz à música pop. Rótulo genérico para os mais diversos ritmos latinos, a salsa, que teve seu apogeu entre meados dos 70 e 80, não atrai mais o consumidor latino dos EUA. Numa recente matéria, no New York Times, o crítico Peter Watrous, lembra que, há três anos, Marc Anthony, um dos últimos salseiros bem sucedidos vendeu 400 mil cópias de seu disco, Contra la Corriente, enquanto, no ano que passou, George Lamond, saudado como o novo ‘rei da salsa’ não passou de um décimo disto, metade das vendas do ‘difícil’ Keith Jarett, com The Melody at Night With You, um CD com solos de piano.

A razão do fenômeno pode ser atribuída ao que se convencionou chamar de globalização. O acesso simultâneo à música que se faz em Londres ou Nova York, a disseminação da MTV, hoje sintonizada nas três Américas, contribuiu para que as novas gerações, tanto de artistas quanto consumidores latinos, não demonstrem muito interesse nas rumbas, cumbias, mambos, sambas da mesma forma que seus tios.Os músicos contemporâneos mesclaram a música de seu país com as influências bebidas nas mais diversas fontes, anglo-americanas, africanas, orientais, originando um estilo híbrido que começa a ter penetração no fechado circuito dos Estados Unidos.

O rock na América Latina firmou-se como gênero viável comercialmente a partir de meados dos anos 80, não por acaso, quando começou a derrocada das ditaduras militares no continente. E mais importante, conforme assinala, em outro artigo no New York Times, (assinado por Larry Lother) quando desapareceu a dicotomia que rotulava o pop/rock como alienado, com a obrigação de se decidir entre Victor Jarra e David Bowie, Mercedes Sosa ou Joan Baez, Chico Buarque ou Bob Dylan.

A nova leva de roqueiros latinos dos anos 80, embora bem sucedida em seus próprios países, no entanto, não conseguia cruzar a fronteira do Rio Grande. Pudera, o pop latino de então espelhava-se nos grupos americanos ou ingleses, muitas vezes não passando de cópias destes. Uma década mais tarde, a cena pop/rock da América Latina está sendo considerada uma das mais criativas dos últimos tempos. E um dos grupos mais elogiados pela crítica é o colombiano Aterciopelados (o melhor show do último Abril Pro Rock).

Formado pela dupla Andrea Echeverri e Hector Buitrago, o Aterciopelados faz o mesmo crossover que caracteriza, por exemplo, o Nação Zumbi, juntando elementos internacionais a ritmos autóctones, como o vallenato. Na pequena Colômbia, aliás, existe uma destas variantes mais instigantes. No ano passado, o álbum de estréia do grupo Bloque constou da lista dos dez melhores lançamentos de 99 compilada pelos críticos do New York Times. O maior nome da Colômbia no Exterior, no entanto, é a descendente de libaneses, Shakira Mebarak. A princípio considerada como um cópia de Alanis Morrisette, em seu mais recente CD, ela uniu elementos de música caribenha, rock, com suas raízes árabes, tornando-se sucesso de público e crítica. Fluente em inglês, Shakira está preparando um CD especial para o mercado dos EUA.

À frente da Colômbia vem o México, onde o rock solidificou-se com personalidade própria antes dos demais países latinos, certamente pela proximidade com os EUA. Bandas como Cafe Tacuba, Maldita Vencidad, Caifanes, Molotov (grupo de rap) ou o pesado Mana, atualmente têm público garantido em ambos os lados da fronteira. Agora em agosto, desembarcam para um mini-turnê em Nova York, as bandas La Ley (Chile), Los Amigos Invisibles (Venezuela), Ilya Kuriaki e Valderramas (Argentina), Café Tacuba, Molotov e Animal (México) e o citado Aterciopelados.

Embora já se tenham estreitado as relações entre algums bandas, Mundo Livre S/A e o Cafe Tacuba, que comungam de estéticas e idelogias semelhantes, ou Paralamas e os argentinos Fito Paez, ou Charly Garcia, a barreira do idioma ainda é o maior dificultador para uma abertura de fronteiras, muito mais do lado de cá. Os Paralamas ou Titãs conseguem fazer sucesso nos países hispânicos, porém a recíproca não é verdadeira. O elogiadíssimo Caribe Atomico, dos Aterciopelados, saiu aqui pela BMG, inteiramente ignorado pelo público. Los Fabulosos Cadillacs (argentino), o Maldita Veincidad, Los Tres (chileno), tiveram CDs lançados no Brasil, sem a menor repercussão. Nem mesmo a exposição conferida pelos elogios derramados de Caetano Veloso ajudou Fito Paez a emplacar. Paez, campeão de vendagens na Argentina, só alcança uma certa notoriedade em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Mas assim como o ‘rock en español’ está sendo ajudado pela MTV a conquistar o público dos EUA, a emissora pode celebrar enfim a difícil união entre brasileiros e hispânicos. Na MTV brasileira, aos poucos veiculam-se clipes de bandas latinas, uma delas já vem chamando atenção,a mexicana Maldita Vencidad, com uma canção de cinco anos atrás, a frenética Pachuco. Nos EUA, os brasileiros têm um forte aliado, o crítico John Parelles, entusiasta da MPB e do novo rock nacional, em especial de grupos pernambucanos. Parelles cobriu todos as apresentações de bandas do mangue beat em Nova York, e assinou o necrológio de Chico Science, no NYT, um quarto de página, certamente um dos maiores que um músico brasileiro já recebeu do mais importante jornal do Ocidente. Com padrinhos de tal calibre, não será surpresa se um Mundo Livre S/A ou Rappa acabar agraciado com um Grammy, na recém, criada categoria Latin Rock/Alternative.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo