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SAÚDE II
‘Ficheiros’ tomam lugar de pacientes

Hospital Geral de Areias (HGA), 5h50, segunda-feira. Uma multidão de aproximadamente 400 pessoas se aglomera diante das portas da unidade, em busca de fichas para o atendimento médico. Em 10 minutos, as senhas começam a ser distribuídas. Antônio Severino da Silva, 70 anos, chegou às 4h40 e depois de três horas de espera volta para casa, num trajeto que irá consumir mais uma hora de ônibus. “Não consegui um cardiologista. Amanhã, tento chegar mais cedo”, planeja. Já a dona de casa Maria José da Silva, 59, chegou uma hora mais tarde que o paciente mal-sucedido pela segunda vez e, no entanto, conseguiu a disputada ficha para o especialista. O motivo: pagou R$ 10 para ocupar o quarto lugar na fila a uma das diversas pessoas que vivem da atividade de guardar vagas para acesso a senhas no hospital.

No HGA, unidade mantida pela rede estadual, onde até mil pessoas por dia procuram serviços só no ambulatório, desonestidade e desespero por atendimento se misturam, criando uma espécie de mercado da ficha médica. Por volta das 11h da noite, mais de uma dezena de ‘ficheiros profissionais’ já estão alojados nas calçadas do prédio. Acomodam-se ao lado de pacientes que madrugam para garantir as próprias vagas, trazendo consigo mantas e garrafas de café para suportar o frio e a espera. Os ‘ficheiros’ aguardam gente que vai chegar pouco antes do amanhecer, disposta a pagar de R$ 5 a R$ 20 para ter acesso à cerca de uma dezena de especialidades clínicas. O preço pode variar conforme a posição na fila. “Eu paguei porque não posso ficar esperando, vivo trêmula, sofro dos nervos. O dinheiro vai fazer falta”, explica a dona de casa Maria José da Silva.

“É um absurdo. Cheguei aqui às 2h da madrugada e já tinha gente dormindo ou fazendo barulho. Tenho que ficar a noite em claro para não perder o médico”, reclama a dona da casa Ivanilda Ferreira do Nascimento, 46. Depois de duas tentativas frustradas, ela conseguiu uma ficha para as únicas cinco vagas de oftalmologia oferecidas na última segunda-feira (14). “Quem não chega muito cedo, perde o médico ou é obrigado a pagar por uma vaga”, reforça sua colega de fila, Aurenice Nogueira, 42, que não teve a mesma sorte. “Ninguém toma nenhuma providência para evitar a venda de vagas nas filas”.

A existência de vendedores de vagas para ficha no Hospital Geral de Areias é de conhecimento da administração da unidade, mas o diretor Frederico Rebêlo diz não ter poder suficiente para coibi-los. “Não podemos impedir. Eventualmente, solicitamos a presença da Polícia Militar, que faz com que eles sumam por alguns dias”, diz. Para Rebêlo, ‘o mercado da ficha’ só existe porque há pessoas dispostas a alimentá-lo, pagando pelos ‘serviços’ que os ficheiros oferecem.

A avidez dos ficheiros em vender as vagas é tanta que eles nem esperam as pessoas chegarem à porta do Hospital. Abordam qualquer veículo que se aproxime. “Estou desempregado. Não vou roubar, por isso ‘cedo’ o lugar na fila”, justifica José Francisco de Lima Filho, 33, que chegou a oferecer ‘seus serviços’ ao carro da reportagem. Ele costuma passar a noite ao lado de mais de dez ficheiros. Com lençóis, dormem na calçada, conversam e brigam entre si pela ordem dos lugares na fila. Quase todos matam o tempo com aguardente. “Eles ficam bêbados e gritando ao lado de mulheres com filhos pequenos, na fila da pediatria. Os guardas daqui são coniventes”, denuncia o paciente Ivaldo do Nascimento, 52.

Com os primeiros raios de sol, os ficheiros, de fato, ofereciam as vagas diante dos olhares dos seguranças que estavam no local. Um dos guardas, com naturalidade, comentou que “o pessoal da reportagem estava lá por causa do pessoal da ficha”. Os ‘vendedores’ só começaram a abandonar o local, desconfiados, quando perceberam a câmera fotográfica em atividade. “Costuma ter apenas dois guardas. Como é que eles vão orientar as pessoas e ainda reprimir quem vende vaga? Além do mais, eles podem ser perigosos. São um problema de polícia”, diz o diretor da unidade, Frederico Rebêlo. “No Brasil é assim. Até por um serviço gratuito é preciso pagar”, reclama o paciente Ivaldo.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo