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SAÚDE IV
Dona de casa se recusa a comprar vaga

A poucos quilômetros do HGA, no bairro de Afogados, às 6h, mais duas dezenas de pacientes tentam atendimento no Centro de Saúde Agamenon Magalhães, unidade da Prefeitura do Recife. O dia é segunda-feira, mas o cenário é comum em qualquer período da semana e igual ao de outras unidades de saúde pública.
Na fila, estão pessoas como Solancy Rufino, 38 anos, que chegou às 4h para tentar um ginecologista e às 8h ainda estava na espera. Assim como os outros, ela está em pé, na fila indiana que concentra todos os candidatos a paciente. Uma única funcionária recebe quem tenta qualquer uma das especialidades. Eles são muitos: por dia, 1.200 pessoas, em média, buscam atendimento na unidade.

“Tem gente que vende o lugar. Mas eu não compro para não alimentar a safadeza”, diz Solancy. Às 9h, ela voltou para casa, sem sucesso. “Vou embora antes que eu ofenda alguém”, fala, já estressada. No outro dia, estará novamente na fila.

A diretora da unidade, Iva Barbosa Valença, diz que é natural que haja fila. “Eles chegam de madrugada porque querem. Os guardas já são orientados a explicar, assim que o centro abre, pela manhã, que as pessoas cujas especialidades não têm vagas no dia voltem para casa. Mesmo assim, eles permanecem na fila até o guichê, para ouvir a confirmação”, diz ela. “Se são tantas pessoas, é normal um pouco de fila”, julga.

Quando questionada sobre o fato de haver apenas um guichê para atender os pacientes, ela explica que o serviço está informatizado e que logo as pessoas são atendidas. “Já às 9h, todo mundo está despachado”, garante.

Não é o que falam os pacientes. “Antes, eram cinco atendentes e era mais rápido. Hoje, não tem ninguém para organizar a fila, que dura horas. Os mais fortes passam na frente da gente que é idoso”, diz Joana Maria de Souza, 59.

A venda de lugares na fila também é de conhecimento da diretora. “Tomamos a providência de só atender a quem tem o cartão de cadastro. Desta forma, só vai ao guichê quem é paciente de fato”, diz a diretora. De acordo com os pacientes veteranos, seis pessoas, na maioria menores de rua, costumam fazer alguns trocados ‘vendendo’ vagas na fila do posto. “Tenho mede de apontar quem são”, diz uma aposenta, que, por cautela, recusa a identificar-se.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo