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SAÚDE VII
Via-crúcis nos hospitais públicos

Vaga para uma consulta médica ao amanhecer. Atrás dessa possibilidade, milhares de pacientes transformam as calçadas de hospitais e centros médicos do Grande Recife em cenários de verdadeiras romarias durante a madrugada. São pessoas, muitas vindas do interior do Estado, que chegam a passar mais de 12 horas em pé, acomodadas no chão, ou de qualquer forma, para encarar a via-crúcis de quem tem a esperança de que os primeiros raios de sol tragam a confirmação de um atendimento.

Desesperada por um reumatologista, a dona de casa Maria José Gomes da Silva, 55 anos, chegou às 19h da terça-feira ao Hospital Osvaldo Cruz (HOC), um dos maiores da rede estadual. Seus planos: conseguir uma ficha às 6h do dia seguinte. “Já cheguei às 4h por várias vezes e voltei para casa sem atendimento. Tem que chegar esta hora, passar a noite, senão não tem médico”, diz ela que, devido a problemas de coluna, não pode sequer sentar ou deitar durante a espera. “Pelo menos, os médicos são muito bons”, considera.

Ao seu lado, quase duas centenas de candidatos a pacientes já se aglomeravam nas portas do HOC às 4h da madrugada. São cenas desoladoras. Velhos dormem no chão, enrolados por cobertores. Para a sorte deles, não é verificada a presença de vendedores de vaga. “A gente não permite que isto aconteça, procurando saber logo quem vai para qual médico”, diz o paciente Torgentil Lins, 53.

Situação pior costuma passar quem não tem o especialista que procura no próprio município e precisa se deslocar ao Recife. No bairro do Parnamirim, um dos metros quadrados mais caros da cidade, a faxineira Maria José da Silva, 48, chegou às 21h30, vinda de Itamaracá. Acompanhava o marido Raimundo, 51, que tentava um psiquiatra no Centro de Saúde Albert Sabin, unidade municipal. “Faz anos que a minha vida é assim. De outra forma, ele não consegue médico”, diz, resignada.

Sandro Oliveira, 24, precisou enfrentar uma maratona de 24 horas para tentar uma consulta com um urologista do HOC. Saiu de Glória do Goitá, a 63 quilômetros do Recife, às 5h da terça. Às 5h do dia seguinte, estava numa fila na porta do hospital. Ainda não era certa a consulta.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo