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EDUCAÇÃO
Soft é artigo de luxo na faculdade

Período de inscrição para o Vestibular é sempre a mesma coisa: jovens cheios de expectativas, que nem sempre são atendidas pelas universidades. A falta de infra-estrutura e a distância entre o que é ensinado e o que o mercado de trabalho cobra gera frustrações. No caso dos estudantes de design e de arquitetura, uma das principais queixas se refere à deficiência de material para o aprendizado de softwares bastante utilizados nessas áreas.

“Tive aula de webdesign no quadro-negro”, reclama o estudante de design da Universidade Federal de Pernambuco Tiago Mascarenhas, 20 anos. Os alunos se queixam que os softwares do Departamento de Design são desatualizados, as máquinas não têm as especificações técnicas necessárias e os laboratórios funcionam de forma precária. E o pior: há computadores parados por causa de burocracia.

A chefe do departamento, Ana Emília Castro, acha que os trâmites da universidade dificultam a melhoria da infra-estrutura. Ela explica que há 60 novos computadores para uso dos alunos, mas a reforma do laboratório sempre é adiada. Apesar dessas complicações, a professora defende que é preciso acabar com a idéia de que tudo só pode ser feito no computador. “Os laboratórios têm problemas, mas que não inviabilizam o aprendizado”, declara, lembrando que uma geração de ótimos webdesigners está saindo do curso.

A professora de design da UFPE Denize Barros acredita que o micro é só uma ferramenta de trabalho e, como tal, não deve ser priorizado no ensino do design. Segundo Denize, 90% dos estudantes do curso têm computador em casa e aprendem a usar os softwares naturalmente. “Não se pode vincular o computador ao processo criativo. As criações mais honestas e sinceras não são feitas na máquina”, opina Denize. Ela defende o ensino de conceitos básicos dos programas para otimização do tempo de trabalho.

Denize Barros admite, porém, que é difícil não usar os programas, porque a maioria das gráficas exige, para impressão, o trabalho finalizado nesse sistema. Ela frisa que o laboratório do Departamento de Design está recebendo novos equipamentos, mas defende que os alunos não podem achar que basta saber usar os programas para ser designer. “O que esses profissionais vão fazer se o computador quebrar?", indaga.

Os alunos não pensam da mesma forma. “Quem não tem computador em casa fica prejudicado”, reclama a aluna Cecília Fiore. Ela considera as máquinas do laboratório lentas, sem condição de uso para os programas gráficos. Para completar, os softwares estão em versões desatualizadas. A estudante não fez nenhum curso particular.

Tantas queixas não são para menos: a disciplina de design e hipermídia que Cecília cursou no semestre passado foi realizada sem os alunos sequer chegarem perto de um micro. Em seu segundo estágio em uma empresa de design de sites, ela afirma que o que aprendeu foi com amigos e colegas de trabalho. Tiago Mascarenhas concorda com Cecília: “A maior carência do curso, na minha opinião, é a falta de orientação na parte prática e técnica”. O estudante também critica a ausência de recursos do laboratório do departamento.

RITMO DE MERCADO – Na área de arquitetura, a situação é um pouco diferente. A aluna Marina Russel explica que há disciplinas eletivas que ensinam a usar softwares como AutoCAD e 3D studio. O laboratório possui programas atualizados, mas só pode ser usado durantes as aulas. Impressões e plotagens são serviços pagos. “É claro que os alunos precisam saber tudo, inclusive desenhar bem à mão livre, mas muita gente não tem essa habilidade e o computador supre isso”, opina.

“O desenho livre é bonito, mas leva muito tempo para ser feito, não pode ser mandado por e-mail, enfim, não acompanha o ritmo que o mercado exige”, completa. Além disso, boa parte dos escritórios de arquitetura exige dos estagiários conhecimento dos softwares. Marina aproveita essas lacunas e presta serviços em AutoCAD para escritórios que não dominam a técnica ou têm grande volume de trabalho.

O professor de arquitetura Antenor Vieira de Melo percebe uma grande disparidade de qualidade e organização entre as apresentações dos alunos que usam programas especializados e os que entregam trabalhos feitos à lápis. “O aparato tecnológico é fundamental e o acesso precisa ser democratizado”, completa.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.08.2000
Quarta-feira