LG_jc.gif (3670 bytes)

MUDANÇA
Tradição das lavadeiras perde força em Portugal

por Cristiana Pereira
Agência Estado/Associated Press

LISBOA – Deolinda Pacheco, uma avó de 75 anos, ensaboa e fricciona vigorosamente uma camiseta, torcendo-a de lado, em uma tina de lavar roupa de pedra em Mandragoa, bairro centenário da capital portuguesa.

Deolinda e mais meia dúzia de mulheres, algumas até mais velhas, reúnem-se, há décadas, ao redor das tinas por várias vezes ao longo da semana, para lavar suas roupas à mão. Poucas ainda usam os serviços desses espaços públicos, conhecidos como lavadouros, que vêm diminuindo de número em Lisboa.

Deolinda e suas companheiras são velhas conhecidas que se encontraram pela primeira vez quando vinham com suas mães para lavar roupas nas tinas. Afinal, trata-se de uma tradição de centenas de anos. Algumas vezes as pessoas formavam filas para lavar suas roupas. “Tínhamos de chegar cedo para segurar lugar”, diz Deolinda, com um lenço enrolado ao redor da cabeça e um avental de plástico amarrado na cintura. “Agora, todo mundo usa máquina de lavar”, lamenta.

O crescimento econômico de Portugal começou desde que o país passou a fazer parte da União Européia em 1986. O lado preocupante do desenvolvimento são as velhas tradições, que vêm rapidamente desaparecendo.

Mas as tinas ainda ajudam bastante no orçamento doméstico de Lidia Fernanda, que vive do outro lado do rio, em Barreiro, a uma hora de distância por meio de ônibus e balsa. Ela passa seis horas por dia em Mandragoa.

Lidia, viúva de 77 anos, cobra 50 escudos (US$ 0,25) para lavar uma camiseta. Para esfregar um tapete grosso e grande ela cobra 3 mil escudos (US$ 15). O lavadouro de Mandragoa, o maior de Lisboa, tem 12 tinas de pedra, cada uma do tamanho de uma pequena piscina. Atualmente só metade delas têm água. Por todo o país elas vêm caindo em desuso. Deolinda conta que o Governo de Lisboa prometeu não desativar o lavadouro. “Mas eles prometem um monte de coisas...”, ironiza.

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo