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JOELMIR BETTING

Efeito Kursk? Efeito Reagan

A tese é minha: 1) não foi o fim da guerra fria que provocou o desmonte da máquina de guerra da Rússia e arredores; 2) foi o colapso do orçamento militar soviético que desencadeou o fim da guerra fria; 3) o trágico destino do moderno submarino russo Kursk, em agosto de 2000, no congelado Mar de Barents, é o último elo de uma corrente de eventos que começou, em Washington, com a posse do presidente Ronald Reagan, em janeiro de 1980.

O ex-caubói de Hollywood, treinado no governo da Califórnia, desembarcou no salão oval da Casa Branca para executar uma promessa de palanque ao pé do verbo e da verba: triplicar o orçamento da Defesa Nacional e resgatar o orgulho da América e a auto-estima do Tio Sam, então destroçados pelo vexame militar no deserto do Irã, depois de esgarçados pela frustração bélica no Vietnã.

Deu-se ali a ignição da Guerra nas Estrelas, já na Idade Digital.

O complexo industrial-militar made in USA, com sobras para fornecedores de meio mundo, passou a desfrutar de um orçamento anual tipo bola-de-neve. Os gastos subiram da média de US$ 92 bilhões por ano, na década de 70, para US$ 294 bilhões já no primeiro mandato de Reagan. A dólar de 1985, o salto foi de 2,7% para 6,3% do PIB americano.

E lá se foi a União Soviética para o formol. Projetada desde Josef Stalin como superpotência militar, em detrimento da economia e da sociedade, a URSS largou na frente da corrida espacial e do arsenal nuclear, atropelando a OTAN em bloco. Ela imperou no front tecnológico da engenharia dos motores e da química dos combustíveis. Para uso militar na terra, no mar e no ar.

O problema é que ela não teve como realizar a mesma façanha no campo chipado da microeletrônica de uso militar e civil. Deixou aberto o flanco para o repto americano da Guerra nas Estrelas – a batalha final dos chips no lugar dos mísseis. Antes, ela se segurava com um orçamento militar equivalente ao dos Estados Unidos – ainda que empenhando nesse desafio insensato perto de 20% do respectivo PIB. Atingido no baixo ventre pela bravata sideral de Reagan, o Kremlin viu-se em apuros no comando de uma sociedade ainda não desenvolvida: ou levantar o custo da máquina de guerra para mais de 50% do PIB soviético ou simplesmente jogar a toalha...

Já com Gorbachev buzinando alto na nomenklatura da Praça Vermelha de espanto, a URSS preferiu jogar a toalha da glasnost política e da perestroika econômica. E teve início, a partir de 1986, sem aviso prévio e sem preparação adequada, a queda em cascata de todos os muros. A maior central de poder da História capitulou sem levar um único tiro, um único manifesto, uma única passeata.

Paz do medo

E não foi para menos. A manutenção dessa força mútua de dissuasão já havia instalado no planeta da miséria, doença e fome, na soma dos arsenais nucleares da Águia e do Urso, algo como 28,8 bilhões de toneladas de dinamite. Cota de 4,8 toneladas para cada terráqueo. Abro mão da minha.

Burrice atroz

Coisa de águia, de urso ou de asno? O instituto londrino Jane, de estudos militares, calcula que o arsenal em poder da Rússia daria para destruir os EUA 64 vezes. E o americano varreria 51 vezes do mapa a desmantelada URSS.

Lixeira nuclear

Desmantelada a URSS, mas não a sucata nuclear. Ogivas carregadas e reatores obsoletos estão espalhados sem controle na terra e no mar.

No limite

Cada tripulante do Kursk ganhava US$ 110 por mês.


Jornal do Commercio
Recife - 20.08.2000
Domingo